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Quanta coisa interrompida e reinventada no confinamento — e quantas mortes inaceitáveis por coronavírus. Isolados e intimidados pela doença, fomos forçados a retornar ao nosso essencial. Alguns de nós percebemos o acelerado e o supérfluo da vida que levávamos. Eu passei o primeiro mês revendo meus valores e hábitos. No meu huis clos sartriano, o inferno fui eu mesma, revivendo o passado sufocada no presente. Porém, confesso que me diverti reaprendendo a andar descalça, tentando fazer pão (falhei) e tentando ser otimista (falhei 65 % das vezes).

Outras coisas só mudaram de formato. Por sorte, aqui em casa pudemos continuar nossos ofícios. Tirando a falta de ver pessoas e de reuniões mais eficientes, foi rápida a adaptação ao teletrabalho. Descobri que meu companheiro de sala, cozinha, quarto e banheiro é também um perfeito colega de escritório. Sou intensa e sociável, embora só me concentre com silêncio. Ele agita-se quando eu me agito e eu calo-me quando ele se cala. Ele é um verdadeiro guru tecnológico, enquanto eu o ajudo nos relatórios.

Desafios e descobertas do novo convívio à parte, hoje ele voltou à empresa. Sozinha pela primeira vez, fiquei sem saber se fazia café só para mim. Na hora da fome, comi pão com ovo. Às duas da tarde tocou a campainha e o cachorro latiu: era o carteiro com uma encomenda. Na caixa encontrei alguns artigos de cozinha junto com a tão esperada saboneteira. Explico: para lavar as mãos, talvez na sua reflexão-retorno às origens, meu companheiro decidiu aderir ao sabonete em barra e abandonar o líquido. Por isso, a nossa primeira saboneteira comprada na Internet: bonita, de cerâmica. Só nos enganámos no tamanho.

«É maior que a borda da pia! Vou deixar aqui com o sabonete e ver o que ele diz, quando chegar. Quem sabe não trocamos a pia? Esse lavabo está precisando de uma reforma», disse eu ao cachorro.

De volta ao escritório improvisado, concentrada em metadados e taxonomias, eis que de repente escuto um estrondo vindo do outro lado do apartamento. Eu e o cachorro nos levantamos em um pulo. «Tem alguém aqui dentro!», pensei, «eu deixei a porta aberta quando fui atender a campainha… ou terá entrado pelo jardim? Terá visto que estou sozinha?»

Ao mesmo tempo sobressaltada e indignada com a audácia do intruso, não tive dúvida: saí nas pontas dos pés disposta a espantá-lo; o cachorro me seguindo. Munida de um guarda-chuva entre as mãos, fui entrando em cada cômodo, olhando atrás das portas, abrindo armários sem fazer barulho. Sala, quarto, cozinha, terraço… nada, ninguém. As janelas do fundo estavam bem fechadas. No banheiro, entrei de supetão e abri a cortina sem hesitar: também vazio.  Só faltava buscar no lavabo, onde só se poderia esconder atrás da porta.

Pois, logo ao entrar, avistei o intruso (ou melhor, a intrusa) e o motivo do tal estrondo: a saboneteira escorregara e se despedaçara toda dentro da pia.

Cristiane de Oliveira nasceu em São Paulo e trabalha na biblioteca da OMS em Genebra. Frequentou o curso Escrevendo Poesia da Oxford University, e é convidada do blogue da Bibliotrónica Portuguesa. Edição e fotografia: Ângela Correia. 

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