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Local: Lisboa. Dia: 25 de Abril de 2020. Hora: 8 h15 min

Adicionei som ao aparelho. Enquanto as nuvens lá fora enegreciam, adelgaçando a luz mortiça que entrava pela janela, ouvi A Portuguesa. Depois, desliguei o rádio e fiquei sentado a escutar o silêncio, imerso naquela outra grandeza auditiva. Passados 46 anos, as reminiscências do meu filho continuavam a tocar-me por dentro do coração. Teimava na mesma pergunta, sem resposta: porque tinha ele sido uma das vítimas mortais da Revolução dos Cravos? Um jovem cândido. Continuava sem compreender a lógica daquilo.

Coloquei água ao lume. Enquanto esperava, contemplei demoradamente a rua. Nada se mexia. Não se via gente. Não se ouvia gente. Fiquei a apreciar aquela brandura.

O zunido da chaleira chamou por mim. Preparei uma caneca de café muito forte. Depois, olhei para a estante e tirei um pequeno livro de capa gasta. No frontispício, em letras amareladas pelos anos, lia-se «Lisbon — What The Tourist Should See», de Fernando Pessoa. Abri o livro sobre o colo e comecei a folheá-lo, até chegar ao que Fernando Pessoa escrevera sobre o monumento a Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Texto escrito no ano de 1925. Fabuloso! Li até compreender bem o que tinha de fazer.

Trajei o casaco vermelho, calcei luvas da mesma cor, enverguei a bandeira de Portugal, ornamentada de graciosos cravos e fui para a rua.

Num passo certo e vivo percorri a vazia avenida da Liberdade. Cada passo acelerava-me as batidas do coração, que ganhavam seriedade, à medida que me aproximava do altivo monumento. Na mão esquerda, o saco de plástico onde transportava o pé de Árvore, que se ergueria do chão e atingiria uma altura eminente, até se aproximar do sol colorido. Enquanto continuava a caminhar pela estrada acima, pensava que, no centro da cidade de Lisboa, nasceria e cresceria a Árvore da Vida e da Liberdade, em celebração do Meu Filho e da Nossa História.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

Comments(2)

    • José Serra

    • há 2 semanas

    “Invulgar”. Analiticamente profundo. Impossível dizer “mais” com este número de palavras, em que cada uma vale por si.

    • Hélio Sequeira

    • há 2 semanas

    Obrigado pelo seu comentário.

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