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Ontem foi noite da palavra no Sagrada Família, em Alfama. Fábio Salgado rodeou-se de livros em papel, smartphone, vídeos, documentário e música cantada em português, numa sucessão de presenças e de tempos quase vertiginosa, mas sempre conseguindo a proeza de não causar vertigem. De Carlos Paredes a Pedro e Diana, passando por Zeca Medeiros, Tom Zé e pelo Bum Bum do Poeta (Beatriz Azevedo), além de muitos outros. Como JP Simões, que, em pessoa, diversas vezes atravessou a sala do Sagrada Família, indiferente à performance que nela decorria. Singularidades de uma rapariga chamada Lisboa…

A Fábio Salgado agrada Alberto Pimenta e a palavra panfletária de tempos diversos e monocromia política. Mas, nunca abdicando do prazer da palavra, o performer leva o panfletário a adquirir a graça do kitsch e a alegria descontraída do distanciamento. Sem ímpeto de doutrinamento, o panfleto torna-se lugar de depurado gozo da palavra dita ou cantada. Talvez contra a vontade de Fábio Salgado, mas graças à simpatia e indulgência de Fábio Salgado.

Com clara qualidade de ritmo, capacidade de interpretação em voz alta, bom gosto e competência na sequência de textos e de formas; com capacidade de improvisação, Fábio Salgado proporcionou um serão de palavras sempre desafiante. E belo, de um modo capaz de acolher as pequenas falhas técnicas do sistema de som, logo resolvidas com a boa disposição de quem se prepara com seriedade, mas não se leva demasiado a sério. De quem, expondo-se, generosamente convida o espetador a espreitar o camarim, onde o palhaço põe o nariz vermelho.

Em diversos momentos do serão me lembrei de Berlim e dos seus cafés de bairro onde artistas e artesãos passeiam descontração e arte, entre o bric-à-brac das feiras da ladra locais. Não fossem tão portuguesas as palavras, poderia esta performance ter decorrido lá. Não fosse Alfama mais bela do que qualquer rua de Berlim; ainda mais ao lusco-fusco. Não fosse… estar a sala quase vazia de espetadores. Mas a sala depressa se tornará pequena, quando os que gostam de livros descobrirem a arte do Fábio Salgado e a simpatia dos donos do Sagrada Família, que, apesar de tudo, insistem em dedicar à palavra um serão semanal…

Comments(2)

    • Antonio Matos Reis

    • há 4 anos

    “NASÃO, Padre Ovidio, Os amores” está errado. É Públio Ovídio.

    1. Agradecemos muito a correção, que já foi lançada na lista de livrónicos na Internet.

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