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Pr 30,28

«A saramantiga, que se sustem nas suas mãos, e que mora no palácio dos reis.»

(tradução da Vulgata por António Pereira de Figueiredo)

(edição de 1926)

 

«le lézard qui peut être attrapé à la main

et qui pourtant est dans le palais des rois!»

(edição TOB de 1988)

 

«o lagarto, que se pode apanhar à mão

mas que entra no palácio dos reis.»

(edição Capuchinhos de 1998)

 

«A aranha apanha com as mãos, e está nos paços dos reis.»

(tradução de João Ferreira de Almeida)

(edição de 2004)

 

A passear em Junho de 2016 por Lisboa, parei em frente da vitrina da Igreja Evangélica Baptista na Rua Filipe Folque para ler a Bíblia. Estava aberta em Provérbios 30. No versículo 28, fala-se do geco. O geco é a osga. Ora eu gosto de osgas. Chegada a casa, fui ler nas quatro traduções da Bíblia que tenho na minha biblioteca Pr 30,28. Transcrevi acima o resultado da minha pesquisa.

A tradução de que gosto mais é a de António Pereira de Figueiredo. Gosto da palavra saramântiga. O dicionário Porto Editora, talvez dos anos 60 ou 70, diz que saramântiga é salamandra. Não sei o que acontece com as salamandras mas as osgas ficam coladas às paredes e aos tectos pelas patas. Acho isto maravilhoso. Li que durante muito tempo se pensou que era um fenómeno de origem mecânica. Recentemente descobriu-se que não se trata de simples ventosas. As moléculas das palmas das patas das osgas ficam ligadas às moléculas das paredes por forças que existem entre moléculas, as forças de Van der Waals. Conhecia estas forças por ter estudado física e química na universidade.

Chamei a estas minhas crónicas da cró porque cró é o nome da osga em alguns dialectos portugueses e pode ser uma onomatopeia que imita o som emitido pelas osgas. Geco é uma onomatopeia de origem malaia para esse som produzido pelas osgas, li no Robert.

Talvez os teólogos não se ocupem muito de osgas e traduzam assim o nome da osga por salamandra (saramântiga), lagarto e até aranha. A meu ver deve ser osga porque são as osgas que entram para dentro das casas e que ficam agarradas pelas patas às paredes.

O melhor de tudo é que tinha na minha sala uma osga pequenina na parede mesmo junto ao tecto. Estava sentada a cismar e, de repente, dou com o bicharoco. As osgas são inofensivas mas há um preconceito contra elas. Eu acho-lhes graça mas assusto-me quando vejo uma.

Adília Lopes

[email protected]

Lisboa, 15 de Junho de 2016

 

Notas

1) Não sei se a Manuela Barros chegou a publicar o trabalho em que diz que não é uma onomatopeia (disse-me isso).

2) Não sei se Van der Waals está bem escrito, escrevi de cor.

3) Cito o Robert de cor, consultei o Robert nos anos 80 no Centro de Linguística.

Comments(2)

    • Luís Bárbara

    • há 4 anos

    Tá giro! Lê-se bem e ensina sem se dar por isso. Sabia lá eu que a osga (também andam aí por casa) podia ser chamada com tantos nomes?

    • fernanda campos

    • há 4 anos

    Fantástico, Adília! É por aqui uma lufada de ar fresco! De osgas! Por aqui também as há! Obrigada pelos esclarecimentos eruditos.

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