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Ontem foi a antestreia do filme Menina, de Cristina Pinheiro, com Nuno Lopes, Beatriz Batarda e Naomi Biton, e eu fui ver. Não que tenha sido convidada; na verdade, nem sabia do acontecimento, mas enganei-me na sala, dentro do cinema. Bem estranhei a quantidade de VIP e o facto de tanta gente se conhecer, ao ponto de haver conversas atravessando filas, antes de o filme começar. Mas, enfim… Quando as luzes se apagaram e o filme começou, era demasiado tarde para desfazer o engano.

O filme Menina tem no centro uma família de emigrantes lusos em França, num tempo em que se chegava lá a «salto», sem se saber ler nem escrever. E, por esta razão, trata os temas da humilhação portuguesa, da saudade, da solidão, da integração, da identidade. E trata muito bem; apoiando-se no trabalho de atores extraordinários, que dá tanto gosto ver transformarem-se. Especialmente a Beatriz Batarda, cujo papel é tão exigente.

Mas se o Menina ficasse por aqui não seria muito diferente de outros que, com tonalidades mais cinzentas ou mais douradas, já visitaram este tema. Felizmente, a emigração lusa em França é, neste filme, tratada como circunstância para enquadrar a questão mais universal da perda no contexto familiar, e a do amor e desamor no mesmo contexto familiar, que inevitavelmente lhe estão ligados. Também aqui o filme é notável, pelo argumento e pelo trabalho dos atores: a condição humana é um desenho feito de universais e particulares que se articulam com leveza. Até considerando a tradição deste tema, que o filme integra e de que se desvia, sem dores.

Mas o aspeto que me comoveu no Menina foi ainda outro. É que há ali o retrato de um certo tempo e de um certo país, através da forma como, em família, se comunica o afeto. «Gostas de mim?» Pergunta a menina à mãe, num momento em que nada lhe seria negado pela família. Uma resposta demasiado doce a esta pergunta teria condenado todo o filme ao anacronismo, ou pior. Mas a mãe responde apenas com certa indiferença: «E tu? Gostas de mim?» Reconhecemos ali o retrato de um país incapaz de comunicar os afetos que unem e separam famílias sob o mesmo teto. Fomos assim. E o passado ainda anda por aí.

Sublinho a habilidade da Cristina Pinheiro, que, tratando de forma tão acertada esta questão, soube destacar a importância que tem a comunicação do afeto nos retratos sociais, culturais, de um tempo, de uma gente. Este é um filme a não perder.

Ângela Correia

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Comments(5)

  1. Comentário elucidativo acerca do filme “Menina”. Fiquei curioso para ver o filme, pela sua apresentação através destas linhas. Parabéns.

    1. Obrigada. Fico contente; o filme merece.
      Ângela Correia

    • armando sousa

    • há 1 mês

    Obrigado Ângela, presumo ter lido um comentário fiel. Talvez vá ver o filme… Ficou-me na mente a sua frase, “e o passado ainda anda por aí”. Lembra-se da guerra colonial?… Alguém quer saber o que “foi isso”?…
    Parabéns

    1. Obrigada, Armando. Quando disse que o passado ainda anda por aí, queria dizer que há uma geração (ou mais) que teve de aprender a dizer (ou mesmo a mostrar) aos filhos o afeto que sente por eles, sem nunca o ter ouvido dos pais, nem estes dos deles. Haverá quem não o conseguiu, perpetuando um silêncio que tanto tolhe. E mesmo os que conseguiram trouxeram do passado um silêncio… que continua por aí.
      Este filme não é sobre a guerra colonial, mas o seu comentário fez-me lembrar o Cartas de Guerra, filme do Ivo M. Ferreira, de que gostei muito, baseado nas cartas que o escritor António Lobo Antunes escreveu de Angola à mulher, durante a guerra colonial. Lembro-me de que um amigo meu, que também por lá andou e também trocava cartas com a mulher, temeu ir ver este filme e não foi. Também este passado anda por aí, também este tolhe, certamente com maior dor.

      Ângela Correia

        • armando sousa

        • há 1 mês

        Sim, Ângela, estou de acordo com o que desenvolve, sobretudo no que respeita à ausência de afetos entre pais e filhos de muitas gerações. Conheço de perto essa realidade. Por tudo quanto descreveu do filme “Menina”, fiquei a saber que o mesmo aborda todo um drama social que tocou, como se sabe, inúmeras famílias do tempo em que se emigrava a “salto”. Comparei-o à guerra colonial porque, emigrantes e soldados, partiam para o desconhecido sem qualquer certeza de regresso. Cenários diferentes, é certo, mas “noites muito iguais”. Também eu não vi o filme Cartas de Guerra, também eu transporto esse inútil passado em silêncio. Há alguns passados que, de facto, andam por aí, mas o tamanho do esquecimento é tão grande como a dor daqueles que os viveram.
        Endereço-lhe os meus cumprimentos

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