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Hoje acordei ainda de noite. Nem os pássaros se ouviam nos jardins. Lembrei-me do Bill Gates, que me mostraram na tal TED talk a prever tudo isto. Lembrei-me de ter perguntado, por ter apanhado o vídeo a meio, em que se baseava para a previsão. Lembrei-me da resposta: um conjunto de surtos epidémicos que só não se tinham tornado pandémicos por circunstâncias específicas, quase por acaso ou mesmo por acaso, deixando prever que, um dia, um vírus haveria de bater a sorte humana. Padrões, portanto. Simples padrões. Os mesmos que os cientistas de dados estudam para fazer previsões, os mesmo que toda a mente científica procura para poder deduzir.

Tenho lido diariamente a imprensa nacional e internacional. Duas certezas maiores se perfilam sobre o vírus: a origem no morcego e a importância da redução da biodiversidade para chegar às pessoas. Nem mesmo estas certezas maiores se podem considerar factos, porém. E sobre a história do pangolim, que terá servido de intermediário entre o morcego e as pessoas, há mais dúvidas que certezas.

Enquanto a madrugada se abria em todo o seu esplendor pascal, dei comigo a pensar que o frágil conhecimento reunido mostra um padrão em que nada mudou, nem mudará tão depressa. Significa isto que, a qualquer momento, depois de resolvida a crise com este vírus, ou mesmo antes, pode surgir outro vírus com potencial para gerar nova pandemia. Leio a imprensa nacional e internacional diariamente: nenhum governo parece agir de acordo com tal cenário. Todos queremos o passado de volta. A nossa querida vida, e o futuro que nela se alojava por cumprir. Trabalhamos para a recuperar; suportamos tudo o que tivermos de suportar, para voltar a ela.

No horizonte, a luz já se encontrou com o trinado das aves. Ontem, na Índia, voltaram a ver-se os Himalaias, que a poluição escondia há décadas. Pergunto-me se teremos de aprender a viver em confinamento intermitente nas próximas décadas. Afastados, a reinventar on-line toda a vida que conhecemos na rua. Enquanto vemos agonizar e morrer tudo o que não saiba sobreviver a uma realidade de confinamento intermitente ao longo de décadas. Um vírus depois do outro. Se tiverem a gentileza de vir só depois do anterior.   

Leio os jornais: nenhum poder trabalha com cenário tão terrível, nenhum Bill Gates previu que o evento possa tornar-se numa série de eventos. Que rei doido o faria? Que rei doido se dirigiria ao povo para lhe dizer: desistam da rua, agora e para sempre; a rua não voltará a ser um lugar seguro; a casa é para sempre agora; inventem, reinventem, a sobrevivência depende da transformação; não percamos tempo, nem energias, nem recursos a tentar voltar atrás, onde o que existiu já não existe.

Afinal, pode ser só uma crise. Poderemos ainda voltar a abraçar-nos demoradamente na rua.

Ângela Correia

Comments(2)

    • José Serra

    • há 4 meses

    Com Fé? Esperança? Caridade?
    Mudar o padrão humano?
    Ascendermos?
    Ah, se eu conhecesse a solução!
    Trataria todo o mal? Ou que parte do mal trataria?
    Que emerjamos, deste dilúvio, melhores.
    Saberemos o que é “melhores”?
    No entretanto, haja Caridade, Esperança e Fé.
    JMS

    • Cristiane de Oliveira

    • há 4 meses

    Que coisa certeira e bonita nos escreves! A ciência sabe pouco, e sabe bem padrões. E nós, atrevidos, vivemos da ilusão de que somos os patrões da natureza, mas não… somos muito pequenos. E predomina a vaidade no poder.

    Como estaremos quando tudo isso acabar? Acho que até os mais lesos pararão para sentir o poder da leveza de um abraço, porque nos dói a falta dele.

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