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São raras as ocasiões em que os meus pais mencionam episódios de uma adolescência vivida muito antes de eu e os meus irmãos aparecermos no horizonte de perspetivas. Tenho então a estranha sensação de que poderia nunca ter cruzado o caminho da existência. E não é uma reflexão ligeira e agradável a de que sou o resultado de uma probabilidade ínfima, tão estreita que poderia ser comprometida numa questão de minutos. Como se costuma dizer, aconteceu por um triz.

Não eram ainda 10 da manhã quando falava sobre estas e outras coisas com o meu pai. Conversávamos sentados à mesa da cozinha, a parte da casa onde a luz matinal se mostra mais generosa, enquanto bebericávamos chávenas de café. Àquela hora, metade da casa ainda dormia. Naquelas semanas estranhas em que não podíamos sair à rua, havia, pelo menos, o consolo das manhãs que tinham gosto a domingo. Aos domingos, tínhamos tempo e vagar para conversas que se transformavam em confidências; sempre conjugadas no pretérito perfeito. Nesta família, os segredos passam por uma marinada que dura anos, antes de serem partilhados.

O pai falava de uma namorada que teve quando entrou na faculdade, antes de conhecer a minha mãe. Colegas de escola e colegas de curso. Era uma miúda com uma genica herdada da mãe e uma costela alentejana da parte do pai. Era comunista, como quase toda a gente no Seixal daquela época. O pai contou que tinham o Alentejo em comum, e que ele fazia piadas empregando o sotaque. «Ela achava-me graça». Os filhos passam muito tempo a tentar não ser como os pais. Até que um dia acordamos e percebemos com clareza que este é um dos caminhos mais difíceis de contornar. Quase infringi a norma tácita de não revelar segredos ainda cobertos pelo véu do presente. Foi por uma hesitação que não contei ao meu pai sobre a minha relação assente em premissas ironicamente tão semelhantes às do namoro dele. Acabei por ficar calada, sorrindo à ideia de que vivemos mais próximos do que à primeira vista nos parece.

A minha mãe entrou na cozinha quando a conversa parecia aplanar. Trouxe o som da água a correr e da loiça em colisão. O ambiente aligeirou. Começámos a falar de namoros de infância e de primeiros beijos. Foi nas festas de São Pedro, nas margens da baía do Seixal, que o meu pai e o João meteram conversa com as irmãs Corvo. Ao meu pai, calhou na rifa a irmã do meio, com quem foi passear para a quinta Joaquim de Sousa, hoje convertida em parque de estacionamento. «Achei aquilo tudo muito estranho», foi tudo o que disse sobre o primeiro beijo. E imaginei-o de jeans apertados, a cara parecida com a do meu irmão mais novo, a voltar para casa pelo caminho de pedra que acompanha a margem do Tejo; cruzando a multidão iluminada pelas luzes dos carrosséis e o cheiro a óleo saturado das farturas. A música da feira, cada vez mais distante, quase deixou de se ouvir depois de o rapaz que ainda não era meu pai virar a esquina para entrar na rua da Sociedade Filarmónica, onde morava. Àquela hora, a minha mãe estaria a dormir, alheia ao fogo de artifício na feira do outro lado do rio. Para partilharmos uma vida com alguém, não basta gostarmos muito da pessoa, Carolina. E temos de ser sempre sinceros. Um momento de silêncio ou uma palavra dita a mais podem alterar o curso de uma vida. Há frases de outros que, permeando-nos tanto, parecem perder as aspas.

Carolina Andrade

Os Invulgares

One Comment

    • José Serra

    • há 1 mês

    … e eu já não posso conversar com os meus.
    Mas conversei.
    (o suficiente?… julgo que não)
    Mas fez-me recordar algumas confidências dos meus. Boas e más… é a vida.
    Bem haja por isso.
    Uma recomendação: não perca nada, nada. Dos pais e dos avós.
    Um dia vai lamentar tudo o que deixou por ouvir.
    José Marcos Serra

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