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No meu livro de poemas de 2003 César a César, afirmo: «Há um livro que tem um título de que gosto muito, é The Great Chain of Being de Arthur O. Lovejoy (Cambridge, Mass., 1936). Ainda não tive oportunidade, certamente por minha culpa, de procurar este livro e de o ler. Sei da sua existência porque Alexandre Koyré o refere em Du Monde Clos à l’Univers Infini (Gallimard, Bibliothèque des Idées, Paris, 1973, «Avant-propos», p. 9).»

Em 2003 estava muito stressada, tive um lapso de memória: consultei o livro de Arthur O. Lovejoy em 1978-1979 na biblioteca da Faculdade de Ciências de Lisboa. A arrumar o meu arquivo, encontrei as transcrições manuscritas desse livro que fiz então. A cota do livro era Filosofia 283.

Tenho um defeito: sou escrupulosa demais, sobretudo em relação a mim. Como se fosse uma grande culpa não ter consultado um livro que não fazia parte da bibliografia de nenhuma cadeira e que nunca ninguém me mandou ler! Não posso ser assim, não é justo.

Devo ao Professor João Andrade e Silva, meu professor de História das Ideias em Física na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1978-1979, a descoberta do autor da minha vida: Alexandre Koiré. Aos 18 anos os meus amores foram Alexandre Koyré e os gatos do Jardim Botânico, a Irmã do Raposão e o Raposão. Os meus 18 anos foram camilianos. Lembro-me da voz de Manuela de Melo a ler com a pronúncia do Porto a página do Amor de Perdição que começa: Dezoito anos! E no filme de Manoel de Oliveira, que passava em episódios na televisão nessa altura. Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida!

Eu tinha 18 anos e estudava muito, em más condições. Alegrava-me a biblioteca da Faculdade de Ciências, o Sr. João e a Dona Esmeralda, empregados competentes, sempre amáveis, a salinha ao lado, que hoje lembro como uma elipse, mas que talvez não fosse uma elipse. Galileu não gostava de elipses, eu gosto de elipses. Às 6h30 a.m. estou agora no café a ler Alexandre Koyré enquanto o mundo desaba. A leitura de «Attitude esthétique et pensée scientifique» de Alexandre Koyré (in Études d’Histoire dela Pensée Scientifique, Gallimard, Tel, Paris, 2014) sobre as ideias estéticas de Galileu é um dos grandes prazeres da minha vida, quase tão bom como sexo com amor.

Lembro-me de mim, só como Job, na salinha elíptica a pensar como se pesa um litro de ar e porque é que a carroça não puxa o burro. As folhas das palmeiras do corredor ao ar livre da entrada da Escola Politécnica batiam nas janelas da biblioteca com o vento ou batiam umas nas outras. Tudo muito poético, não haja dúvidas.

Tive uns 18 anos camilianos, tenho uns 50 anos proustianos. Vou no tempo reencontrado. A flor japonesa deitada à água não para de desabrochar. Que não aconteça o mesmo ao cogumelo atómico.

Adília Lopes

[email protected]

Lx., 3-7-2016

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Os apontamentos de 1978-1979

One Comment

    • Mira Martins

    • há 8 anos

    simples e fresca como uma nascente.
    Estou contente. DESCOBRI-A.

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