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Tenho o meu portátil ligado à TV para ver as séries infinitas que não paro de acumular. Os canais tornaram-se todos uma constante repetição que já me cansa até dizer chega. Ao menos assim vejo o que quero e não o que os outros querem que eu veja, quer goste de ver quer não. Sinto-me melhor assim. Toda a gente faz o mesmo.

Escolho o episódio seguinte usando o meu rato sem fios, refastelado no sofá que, mesmo antigo, nunca deixou de ser confortável. Até tenho uma manta por cima e um aquecedor para os pés. Conforto máximo! E os snacks estão ao alcance da minha mão na mesinha de centro com o resto da lixarada espalhada por todo o lado. Não me importo. Já se há de limpar. Tudo tem solução. Basta querer começar, que é exatamente a parte mais difícil. Nunca percebi bem porque acaba sempre o trabalho por ser mais fácil do que começar a fazê-lo, mas tenho pensado nisto muitas vezes. Se calhar, já foram vezes de mais. Talvez amanhã perceba, depois de dormir sobre o assunto (literalmente).

Ardem-me os olhos como se sentisse pequenas picadas de abelhas sonolentas, mas continuo com o olhar fixo na TV e sei que não quero sair dali. Mesmo que pense mil vezes que quero, sim senhora! É uma luta constante. Também já pensei mil vezes: quero trabalhar! Estou farto de não fazer nada, ou de ficar aqui sentado a fazer tudo menos o que tenho de fazer. Quero pôr mãos à obra, mas não consigo fazê-lo sozinho. Preciso de que alguma coisa me puxe, porque eu já não tenho balanço que chegue. Sinto-me preso a este sofá demasiado confortável, com o comando numa mão e o telemóvel na outra. Mas não há nada a fazer. Sou um recluso sem grades, o que é muito pior, pois a minha prisão é tão adaptável que vem comigo para todo o lado. Menos um sítio. Aí sinto-me sempre seguro. Aconteça o que acontecer e morra quem morrer.

Fecho os olhos e estou noutro lugar. Estou em alto mar e, para qualquer lado que olhe, não avisto terra. Se calhar, estou num mundo líquido, feito de água salgada e nada mais. Esta ideia não me assusta; diria até que me deixa mais relaxado. Respiro fundo. Já me sinto melhor. Duas pessoas chegam à tona da água, perto de mim. Estou num pequeno barco a motor, por isso nem preciso de me levantar. Estico a mão e já estou a voar sobre a água até elas. É uma mulher e um homem. E mais um homem que aparece à tona da água a esbracejar que nem um gato atirado ao mar. Não cabem três pessoas dentro do barco e eu digo-lhes isso mesmo. O primeiro homem pede para os deixar subir e a mulher já vem a nadar para cá. Eu volto a ligar o motor e afasto-me até os perder de vista.

Está sol. Deito-me de costas no barco para sentir melhor o calorzinho na cara que me sabe pela vida. Sinto-me quente e relaxado. Volto a fechar os olhos. E preferia nunca mais ter de voltar a abri-los.

Ana Rita Sintra

Os Invulgares

Comments(4)

    • Nuno Renato Marques

    • há 10 meses

    Ainda bem que a literatura não é a realidade. Não faz nascer nem morrer a vida. Fui mais uma vez transportado pelas palavras. Não morro de ler, e isso é um descanso. O texto trata o problema da culpa e o que esta tem a ver com o mal. Pelos vistos quem faz mal não é culpado. E isso assusta. Nesse lugar de incerteza pede-se um herói; Talvez da Marvel. Estes também só existem na ficção, tal como o texto. Só um herói da Marvel para resolver o problema. O texto incomodou-me. É como uma bomba no meu bem-estar. Vou buscar a Polícia Judiciária. Mas esta não resolve males de literatura. É difícil de suportar. Estou demasiado próximo. Vou tentar galgar distância. Se o consegui, digo no próximo texto de que fico à espera.

    1. Muito obrigada pelos seus comentários! Deixou-me sem palavras, pois nunca pensei que fosse causar tal impacto. Sabe bem escrever para pessoas tão atentas, que até me fazem ver que há mais que se diga neste texto do que eu própria pensava. É o que me dá mais prazer ao ler e ao escrever: saber que há tantas interpretações quanto pessoas no mundo.

    • Carlos Arnaut

    • há 10 meses

    Admirável a tentativa de superação da inércia, mais um exercício de auto-crítica do que a evidência de uma vontade de carregar no stop e assumir-se como produtora/realizadora da sua intimidade.
    Que os nadadores, naquele mar suponho que muito azul, não se afoguem.

    • José Serra

    • há 10 meses

    Fecho os olhos e dou comigo a cogitar sobre o texto que acabo de ler. Quão mais enriquecedor é ler que deglutir a papa feita…
    (e com que fim é ela feita)
    … que entra pelos olhos às gadanhas: mastigada, insípida.
    E releio; e redescubro; e volto a pensar.
    É bom!

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