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Saber e ver uma coisa com os próprios olhos são coisas completamente diferentes. Eu que o diga!

Eu já sabia o que se passava entre nós ou, melhor, o que não se passava. Chamemos-lhe pressentimento. À medida que o tempo foi passando, este pressentimento tornou-se cada vez mais intenso, quase uma certeza. Mas não quis saber.

Era aquele tipo de saber como quem não quer a coisa. E, a sério, eu não queria. Seria uma destruição total, com uma força de guindaste, de uma relação que demorara tanto tempo a construir. Não podia deitar tudo a perder, apenas por saber que se passava alguma coisa. Ela escondia-me alguma coisa. E então?

Todos temos segredos. Eu também os tenho e gosto de guardar as coisas para mim. Para que hei de andar a atirar os meus problemas para cima dos outros, quando posso resolvê-los sozinho e, assim, ficarmos todos felizes? Ela podia fazer exatamente o mesmo, certo? Bem, depende. Os meus problemas eram os meus problemas e só me afetavam a mim. O que ela fez afetava muita gente. Ou pouca gente, mas com grande intensidade; assim é que é.

É a mente. Distorce tudo. Esperta como é, tenta defender-se o máximo que pode, pensando que me defende também. É egoísta e egocêntrica. Faz com que as coisas mais óbvias me passem ao lado, à frente, por cima, por onde quer que seja. Mal pisquei os olhos na direção do perigo que espreitava, cada vez mais perto. Já as coisas mais irrelevantes de sempre são aquelas com as quais sou mais picuinhas. É impressionante! Especialmente o facto de não controlar nada disto!

Não gostava de que ela fosse esparramar-se no sofá depois do almoço ou do jantar, em vez de lavar logo a louça (quando era a vez dela, claro). Não gostava de ver tudo ali entulhado e a secar cheio de porcaria. Mais valia despachar na altura, como eu fazia e ela nunca fez. Também não gostava do raio dos cabelos a entupir o ralo da banheira, do lavatório e sabe-se lá mais do quê. Era cabelos por todo o lado e eu é que tinha de os limpar! Raios me partam!

Era preciso ser masoquista para continuar com ela, principalmente depois do que me fez. Mesmo assim, pensamos sempre: «nunca me vai acontecer» ou «sou mais esperto do que isso» ou «isso só acontece aos outros». Até que acontece, e ficamos sem saber para que lado nos havemos de virar. Qualquer um parece horrível, mais vale ficar quieto. Foi o que fiz.

Sempre soube, mas guardei, sem saber, a esperança de que não fosse verdade. A mente não me disse nada, quanto mais ela, aquela cabra. Vá, não gosto de chamar nomes, mas sinto que ela mereceu esta. Vai ser a última. Prometo.

O mais difícil foi ver, com os meus próprios olhos, e sentir que, finalmente, acompanhava o ritmo da verdade, tendo entrado já tarde na corrida. A suspeita tornou-se mais real do que pensava, e não havia nada para reverter a situação. Era como se tivesse aberto a caixa de Pandora e já não pudesse voltar atrás. Estraguei tudo. Eu sei, eu sei, ela é que estragou tudo primeiro, mas às vezes tenho aquela convicção estúpida de que a culpa foi minha. Talvez tudo aquilo acabasse a seu tempo e ela voltasse para mim, por inteiro e não apenas um terço.

No final de contas, era ela que não queria saber. Era a única explicação: nunca quis saber de mim para nada. Tinha mais com que se entreter.

Ana Rita Sintra

Os Invulgares

One Comment

    • josé a m serra

    • há 3 meses

    Gostei deste mapa como rota de viagem, ansiando chegar ao fim para ver aonde me levava.
    Cheguei e reli.

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