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O meu rei favorito chamou-se Alfonso. Conheci-o há muitos anos na Biblioteca Nacional de Portugal, na sala de leitura geral. Não sei quem projetou a Biblioteca Nacional, em Lisboa, que, quando a conheci, se chamava «de Lisboa» precisamente, e agora se chama «de Portugal». Talvez devesse saber o nome do arquiteto, mas não sei, nunca soube, e resisto a procurar a informação na Internet. Desconheço o arquiteto, mas reconheço o tempo do que desenhou e julgo saber como pensou. Projeto no pensamento a planta do espaço acessível e, com certa soberba, acredito compreender a experiência que quis impor.

Há uma linha reta que une a porta de entrada e a sala de leitura geral. Invisível inicialmente porque o átrio a apaga e o espaço subsequente a desvia ligeiramente, mas depois lá está ela agindo como o fio de Ariadne a caminho da sala de leitura geral. Antes da chegada, dilui-se na luz que chega do alto pela direita, em espaço de amplo pé-direito. É um compasso de espera, onde sempre conheci o lugar de preparar os pedidos. Antigamente eram ali centrais os grandes ficheiros de madeira, animais pernilongos alojando múltiplas gavetas estreitas e compridas, que se afundavam e descobriam, expondo fichas de papel. O tempo mostrava-se nas formas diversas, e na escrita diversa. Algumas datilografadas, outras escritas com canetas de tinta permanente. Havia muito sossego nos L das cotas desenhados laboriosamente a tinta permanente, e nos O maiúsculos, com um singelo caracol interno. Notava-se o ínfimo pingo de tinta no ponto em que o bibliotecário poisava e levantava a caneta. O esmero com que fazia coincidir o princípio e o fim de alguns traços num único ponto de acumulação ligeira de tinta.

Tinha eu uma destas gavetas totalmente aberta, à altura do peito, quando se aproximou, atravessando o espaço da linha diluída, um colega que amei. Do outro lado da gaveta, anunciou-me a morte de um dos nossos monstros sagrados. Havia então no mundo esta numerosa casta de monstros sagrados, que eu julgava até unidos por afetos umbilicais e reflexos medulares. Pareceu-me nada mais que racional esperar uma dolorosa convulsão entre os continentes do planeta Terra, a implantação imediata de uma prolongada carestia de bens intelectuais insubstituíveis. Nada ocorreu, salvo o habitual acumular de acontecimentos sobre o pó de anteriores acontecimentos. Muitas vezes abri e fechei as gavetas compridas nos ficheiros pernilongos, antes de compreender que são marcas de nascença nossas os monstros sagrados; é preciso mudarmos nós de ser, para que tombem eles, sob pena de morte ou de vida. Nada então se moveu para lá de mim, porque nada ainda podia mover-se dentro de mim.

Os móveis pernilongos ainda lá existem na sala dos pedidos, arrumados num canto. Agora as buscas de títulos e cotas fazem-se em computadores e os pedidos imprimem-se em máquinas que parecem de calcular. Se fôssemos muitos, poderíamos organizar protestos, gesticular amarguras, argumentar que as bibliotecas sem fichas caligrafadas a tinta permanente ou datilografadas a preto e vermelho não são bem bibliotecas, assim como a língua sem a ortografia de outrora não é a língua, e as cidades sem livrarias nem cinemas não são cidades. Confesso almejar a pesquisa e o pedido de livros com o pensamento, por meio de sensores nas têmporas quem sabe, para poder talvez amar estes computadores de desenho disfarçadamente anguloso, estas teclas onde o pó se acumula e entranha em volta dos círculos digitais. Mudar é uma dor, não mudar outra dor, haveremos de fazer a travessia do tempo sempre atormentados pelo amor à memória, e tentados pela resistência.

Volto à linha reta que une a porta de entrada da Biblioteca e a sala de leitura geral, onde conheci o meu rei favorito. Seguindo-a, e deixando para trás o desvio onde se preparam os pedidos, o espaço estreita-se e a luz reduz-se, anunciando mudanças. Quem por ali avança não dá 20 passos sem ser advertido, por esta combinada redução de largura, altura e luz, de que vai entrar em espaço solene onde as regras se alteram. E chegados à sala de leitura, onde a escala não é humana, embora humanamente alcançável, a luz é cuidadosamente condicionada para sublinhar as dimensões: a humana e a sobre-humana. Atravessada a porta, o estreitamento desaparece, mas a penumbra ainda nos acolhe para vermos adiante que a entrada de luz é exclusivamente lateral. À direita, é discreta: só entra muito lá no alto e é coada; abaixo dela, já em relativa penumbra, alinham-se as estantes dos livros em acesso direto, que continuam pela parede do fundo. À esquerda, a luz entra sobretudo à altura humana, sem entraves, por um extenso envidraçado: vê-se uma varanda. Para lá da varanda, água e vegetação a uma cota mais baixa, pelo que, em qualquer ponto da sala de leitura, o sentimento é de suspensão. Vamos suspensos em lenta navegação. À frente de quem entra, estende-se o lençol de mesas e cadeirões, de desenho indisfarçadamente angular, extraído de cubos e paralelepípedos. As pessoas encaixam-se no espaço, limitadas à pequena escala que o arquiteto ali demonstra ser a delas. O pé direito de gigante ergue-se sobre nós, procurando impor o silêncio, e a luz esmorece sobre os livros em baixo, ao fundo e à direita. A regra de silêncio na sala de leitura da BN pretende-se só ornamental; o espaço e a luz devem extraí-lo das pessoas, arrumadas nos móveis e por ali, em circuitos curtos. É fácil ignorar as presenças neste espaço, cortar os canais sensoriais que nos ligam aos outros, refinar a concentração. Respiro mais devagar, o tempo distende-se, a memória da segurança que sentirei neste espaço haverá sempre de assustar-me mais tarde. Mas ali é como se pudesse ficar entre murmúrios, passos curtos, ideias, antigas novidades, maravilhas; o ar que se desentala do peito faz-se notar pela ausência.

Atravessei um dia, enquanto esperava os livros pedidos, todo o espaço que separava da estante ao fundo da sala a minha poltrona. Caminhei entre mesas ocupadas por criaturas silenciosas, até ao fundo onde a penumbra se acentua sobre os livros. Foi ali que conheci o meu rei favorito. Já tinha lido sobre ele, já tinha até falado dele aos meus alunos e já me tinha deixado seduzir pelo grão de loucura que brilha no que este rei fez, no que deixou feito, no que quis fazer. Calhou notar os volumes de uma enciclopédia espanhola; capa dura verde escura e letras douradas. Retirei um volume e folheei, notando o grafismo arredondado, cuidado, muito regular. O verbete sobre Alfonso falava de factos que eu já conhecia. Os feitos, as obras visionárias, megalómanas; as obstinações, as criações, a política, os empreendimentos, o casamento, as alianças, o reino, o primogénito. Falava a enciclopédia do amor de Alfonso a Fernando, o príncipe herdeiro; o que estranhei por não ser habitual falar-se de amor em enciclopédias. Mas só estranhei por desconhecer o que de seguida li e me esclareceu sobre como o amor de Alfonso pelo filho Fernando se tornou num acontecimento político, e conquistou lugar na enciclopédia espanhola. Educado para suceder ao pai, Fernando participava já da governação, e cada vez mais, à medida que o pai envelhecia. Mas o que ninguém esperava que acontecesse aconteceu, e Fernando, já pai de filhos pequenos, perdeu a vida repentinamente, em vésperas de uma batalha. Dizia a enciclopédia espanhola que foi tal a guerra pela sucessão logo aberta, que os filhos de Fernando correram risco de vida e tiveram de os retirar do reino. Que Alfonso defendeu em vão o direito destes netos à sucessão no trono, roubado enfim por um irmão de Fernando. Dizia também a enciclopédia que Alfonso nunca após a morte de Fernando voltou a ser o mesmo; nem o rei nem o homem. E foi assim que conheci o meu rei favorito, lendo de pé um pesado volume de uma enciclopédia verde, ao fundo da sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Portugal. Meu rei favorito pelo pensamento criativo, pela liberdade um pouco alucinada, até pela obstinação; por todas as perdas, as que não poderia ter evitado e as que poderia ter evitado; pelas infinitas fraquezas, tanto quanto pela desenfreada bravura.

Voltei àquele lugar da Biblioteca Nacional de Portugal, àquele momento em que conheci o meu rei favorito, todas as vezes em que a perda de pessoas para a morte ou para a vida me pôs de joelhos. E de joelhos fiz por me reerguer agarrada ao rosário de pensar que cada perda talvez tornasse estatisticamente menos provável a perda das minhas crias.

Ângela Correia

(editado por Nazaré Carvalho)

Comments(2)

    • Cristiane Oliveira

    • há 3 meses

    Querida Ângela, obrigada por este passeio na Biblioteca Nacional que ainda não pude visitar. Este tema, biblioteca, me fala diretamente ao coração e à razão ao mesmo tempo. Sobre o qual só posso ter memórias afetivas e me identificar muito. Já produzi muitas fichas catalográficas datilografadas, também. Obrigada também pela reflexão sobre o tempo e perdas. Estamos nesta linha reta.
    Um grande abraço, Cristiane

      • Angela Correia

      • há 3 meses

      Um abraço, querida Cristiane.
      Ângela

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