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1- O conceito

A carvoíça é o estar a meio das coisas. Já não é lenha mas ainda o é porque já o foi. Ainda não é cinza mas será este o propósito. É como uma vida interrompida, uma pausa, um suspense… mas que não consegue mudar o fim inicialmente definido.   Poderíamos deixar a lenha arder até se tornar cinza, mas deixamos a lenha arder até se tornar carvão, antes de se tornar cinza… para quê? Para ser vendida ou utilizada num novo fogo que termina o processo: o carvão, finalmente, transforma-se em cinza. É como se alguém fosse destinado a morrer e, tendo o homicídio falhado o propósito e tendo a vítima conseguido escapar, o homicida a encontrasse novamente e concretizasse o primordial objetivo.

2- Alvertino

Alvertino era um crente. Um crente que, por muito amar a liberdade de que com tamanha vaidade se gabava, escolheu praticar ações reprováveis segundo o código moral da sociedade rural em que vivia. E, como acontece com todas as criaturas viventes, morreu. Todos sabemos qual é o processo. Todos conhecemos cada passo. Os desenhos animados têm nisto a principal função. Todos sabemos que, quando um homem morre, a alma viaja por uma espécie de túnel escuro. Na verdade, um espectador exterior só é capaz de ver o corpo e a alma num determinado ponto de um gráfico cartesiano e, depois, noutro ponto, já só a alma. Mas nós, que conhecemos os bastidores dos teletransportes de almas, sabemos da existência daquele túnel. E naquele túnel, enquanto a alma viaja para o lugar que lhe é devido, a consciência, emanando da alma, pensa.

A consciência do senhor Alvertino também ali pensou. Pensou que, afinal, o lugar para onde as almas vão não é assim tão mau como anunciado pelo padre Agelido. É verdade que é um espaço negro, mas isto não é muito assustador, porque também se atravessam semelhantes na Terra. É verdade. Acontece muitas vezes confundir o caminho com a chegada. Acho que foi o que aconteceu ao senhor Alvertino, que pensou: afinal é isto! Mas nós, que vemos de cima, já sabíamos o que ia acontecer. Era inevitável, senhor Alvertino!

 Vermelho! Vermelho! Vermelho! Vermelho! Cinza.

Luís Ramos

Os Invulgares

Comments(8)

    • Nuno Renato Marques

    • há 7 meses

    Exercício brilhante de recriação de conceitos e processos filosóficos, em que a liberdade que o autor concede à prosa da filosofia, faz criar novos sentidos que provocam prazer estético e intelectual, através da ficcionalidade pretendida.
    A Carvoíça leva o leitor à viagem da morte, a uma alma perdida no escuro que não é mais do que cinza, apesar do grito desesperado por vermelho. Se virarmos os olhos fechados para o sol, através das pálpebras somos quase encadeados por uma luz vermelha. Esta experiência transporta o agente a um sossego, que pode ser comparado com a morte.
    O carvão é muito poluente, mas inofensivo enquanto palavra de um texto ficcional.

      • Luís Ramos

      • há 7 meses

      Muito agradecido pelo comentário! No enlace da beleza da sua experiência, repare também que, se aos olhos subtrair o sol ou qualquer outro tipo de luz, pode vislumbrar a negritude pela qual são afetadas as suas pálpebras. Será que nos resta apenas este vermelho e este negro-cinza? Ou, depois de abrirmos as pálpebras, algo mais nos aguarda?

        • Nuno Renato Marques

        • há 6 meses

        Obrigado por ler com atenção o meu comentário. A morte gera especulação, medo e coragem devido à incerteza só desfeita quando morremos.É o grande limiar por cuja óptica observamos a vida e fazemos o balanço da existência, tal como na literatura acontece frequentemente com o final.
        Carvoíça, com um final em aberto, pede que o leitor imagine para obter sentido. Aponta o mínimo que podemos esperar da morte, um estado sem luz. Será que a luz com todas as suas metáforas é característica do estado vivente, pode-se perguntar, estendendo o problema da mortalidade ao da vida.

    • José Serra

    • há 7 meses

    Imaginação! Invulgar!
    Em qualquer cor: incandescente!

      • Luís Ramos

      • há 7 meses

      Sem o leitor que transportasse tamanha imaginação invulgar na mente e observável cor incandescente nos olhos para julgar este texto, o mesmo permaneceria objetivamente transparente. Obrigado!

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