Carvoíça, por Luís Ramos

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1- O conceito

A carvoíça é o estar a meio das coisas. Já não é lenha mas ainda o é porque já o foi. Ainda não é cinza mas será este o propósito. É como uma vida interrompida, uma pausa, um suspense… mas que não consegue mudar o fim inicialmente definido.   Poderíamos deixar a lenha arder até se tornar cinza, mas deixamos a lenha arder até se tornar carvão, antes de se tornar cinza… para quê? Para ser vendida ou utilizada num novo fogo que termina o processo: o carvão, finalmente, transforma-se em cinza. É como se alguém fosse destinado a morrer e, tendo o homicídio falhado o propósito e tendo a vítima conseguido escapar, o homicida a encontrasse novamente e concretizasse o primordial objetivo.

2- Alvertino

Alvertino era um crente. Um crente que, por muito amar a liberdade de que com tamanha vaidade se gabava, escolheu praticar ações reprováveis segundo o código moral da sociedade rural em que vivia. E, como acontece com todas as criaturas viventes, morreu. Todos sabemos qual é o processo. Todos conhecemos cada passo. Os desenhos animados têm nisto a principal função. Todos sabemos que, quando um homem morre, a alma viaja por uma espécie de túnel escuro. Na verdade, um espectador exterior só é capaz de ver o corpo e a alma num determinado ponto de um gráfico cartesiano e, depois, noutro ponto, já só a alma. Mas nós, que conhecemos os bastidores dos teletransportes de almas, sabemos da existência daquele túnel. E naquele túnel, enquanto a alma viaja para o lugar que lhe é devido, a consciência, emanando da alma, pensa.

A consciência do senhor Alvertino também ali pensou. Pensou que, afinal, o lugar para onde as almas vão não é assim tão mau como anunciado pelo padre Agelido. É verdade que é um espaço negro, mas isto não é muito assustador, porque também se atravessam semelhantes na Terra. É verdade. Acontece muitas vezes confundir o caminho com a chegada. Acho que foi o que aconteceu ao senhor Alvertino, que pensou: afinal é isto! Mas nós, que vemos de cima, já sabíamos o que ia acontecer. Era inevitável, senhor Alvertino!

 Vermelho! Vermelho! Vermelho! Vermelho! Cinza.

Luís Ramos

Os Invulgares

6 Responses to "Carvoíça, por Luís Ramos"
  1. Nuno Renato Marques diz:

    Exercício brilhante de recriação de conceitos e processos filosóficos, em que a liberdade que o autor concede à prosa da filosofia, faz criar novos sentidos que provocam prazer estético e intelectual, através da ficcionalidade pretendida.
    A Carvoíça leva o leitor à viagem da morte, a uma alma perdida no escuro que não é mais do que cinza, apesar do grito desesperado por vermelho. Se virarmos os olhos fechados para o sol, através das pálpebras somos quase encadeados por uma luz vermelha. Esta experiência transporta o agente a um sossego, que pode ser comparado com a morte.
    O carvão é muito poluente, mas inofensivo enquanto palavra de um texto ficcional.

    • Luís Ramos diz:

      Muito agradecido pelo comentário! No enlace da beleza da sua experiência, repare também que, se aos olhos subtrair o sol ou qualquer outro tipo de luz, pode vislumbrar a negritude pela qual são afetadas as suas pálpebras. Será que nos resta apenas este vermelho e este negro-cinza? Ou, depois de abrirmos as pálpebras, algo mais nos aguarda?

      • Nuno Renato Marques diz:

        Obrigado por ler com atenção o meu comentário. A morte gera especulação, medo e coragem devido à incerteza só desfeita quando morremos.É o grande limiar por cuja óptica observamos a vida e fazemos o balanço da existência, tal como na literatura acontece frequentemente com o final.
        Carvoíça, com um final em aberto, pede que o leitor imagine para obter sentido. Aponta o mínimo que podemos esperar da morte, um estado sem luz. Será que a luz com todas as suas metáforas é característica do estado vivente, pode-se perguntar, estendendo o problema da mortalidade ao da vida.

        • Luís Ramos diz:

          Agradeço também a leitura do texto e da resposta ao meu comentário. Parece verdade que a ideia da morte gera medo ou será medo por não estarmos vivos? Que incerteza clarificará a morte, se a incerteza pressupõe a vida? Parece-me que tudo o que podemos pensar sobre a morte requer o pano de fundo da vida. Ou aquilo a que chamamos morte é um estado tão diferente que consegue preservar a consciência que nós parecemos ser? Transcende-a possivelmente? Se não, como é possível à coragem despontar para um estado que conduz à negação desse estado?
          O grande problema parece ser que na literatura há apenas um final relativo. Um livro é sempre um recorte de algo maior. Algo que, comparado com a vida, não nos permite distinguir fim e início. Não é desapropriado um balanço quando não sabemos se poderíamos ter feito as coisas de forma diferente ou não? Quando não distinguimos o fim do início? Quando tudo isto é um emaranhado de linhas?
          E, claro, uma questão bastante interessante que colocou: como surge esta identificação da luz com a vida e das trevas com a morte? Não serão ambas modos de ser, à parte qualquer juízo de valor? Não sei bem, mas um dia havemos de encontrar a resposta. Ou talvez não. Quem sabe? Sabemos ou, pelo menos, sentimos na mesma que o tempo passa por nós. Muitas pessoas dizem que a morte é a nossa única certeza, mas será mesmo?

  2. José Serra diz:

    Imaginação! Invulgar!
    Em qualquer cor: incandescente!

    • Luís Ramos diz:

      Sem o leitor que transportasse tamanha imaginação invulgar na mente e observável cor incandescente nos olhos para julgar este texto, o mesmo permaneceria objetivamente transparente. Obrigado!

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