A pensão da Pachacha, por Ana Rita Sintra

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Chegou a casa cansada até à ponta dos cabelos. Mal abriu a porta, seguiu para o quarto, encostou a mala aos pés da cama e atirou-se para cima da colcha fofa, esborrachando a cara contra as almofadas. Não conseguia respirar lá muito bem assim, por isso fez o esforço de virar a cara para o lado. O quarto dela cheirava bem, a uma mistura de aromas de maçã, canela e mirtilo, provenientes das velas que tinha acendido constantemente nos últimos dias.

No entanto, passados uns segundos ou minutos ou até horas — não tinha bem noção do tempo na névoa de sono em que se encontrava —, começou a sentir o cheirinho típico da comida caseira da mãe, que lhe fazia palpitar de contentamento as narinas e as papilas. Era bom, e apercebeu-se de que já deveriam ser quase horas de jantar. Será que a mãe tinha dado pela chegada dela? Nem tinha dito nada…

Viviam na mesma casa, mas parecia que mal se viam ou falavam. Devia ser normal para os irmãos, que passavam a vida agarrados ao ecrã do computador, qual máquina de suporte de vida, mas ela era diferente… ou não? Por acaso, agora que pensava nisso… a verdade é que passava cada vez mais tempo isolada no quarto. Era ali que se juntavam todos os interesses dela. A reunião familiar havia muito tempo que ficara limitada aos cada vez mais raros casos em que todos se juntavam para comer à mesma hora. Mais parecia «a pensão da Pachacha», como dizia a mãe. Sinceramente, não percebia de onde vinha a expressão — provavelmente prender-se-ia com alguma história da infância, em Campo Maior. Mas conseguia perceber que a mãe não gostasse  de ver cada um chegar quando lhe apetecia. O pai já nem a avisava: era pior do que os filhos neste aspeto.

Não gostava de ver a mãe naquela situação, por isso tentava ajudar sempre que podia. Mas eram mais frequentes os dias em que chegava com o peso do cansaço a dar-lhe cabo do corpo e, principalmente, da cabeça. Bem, vendo melhor as coisas, até podia estar fisicamente pronta para o que desse e viesse, mas a mente fazia parecer que tudo lhe doía, mesmo não sentido dor nenhuma. E era difícil resistir àquela cama tão fofa. Adormeceu.

Quando foi jantar, já os irmãos tinham comido e desaparecido para dentro das tocas escuras. Hibernavam no inverno e estivavam no verão. O pai tomava um cappuccino que ele próprio fazia religiosamente, e a mãe já não dizia nada. Já estava habituada. Já estavam todos.

— Por que não me chamaste para vir jantar? — perguntou, com a irritação dos recém-acordados.

— Eu chamo sempre! Vocês é que não vêm quando chamo!

Como poderia ela saber, se estava a dormir? Sentiu-se zangada e olhou para a mãe. Também estava zangada e cansada de se repetir. Naquele momento, partilhavam o mesmo tipo de cansaço. Decidiu abraçá-la, só porque sim. A mãe protestou, fosse por já não ser uma criancinha, fosse por a comida já estar fria. Mas, depois, devolveu o abraço e sorriu nas costas da filha. Quando terminou o abraço, escondeu o sorriso, não fosse a filha pensar que aquilo resolvia as coisas.

A filha sorriu e disse uma parvoeira qualquer. Já não se sentia tão cansada. Comeu rapidamente e ajudou a lavar e a limpar a louça. Para variar, sentou-se com os pais no sofá da sala, enquanto escrevia no portátil. De vez em quando, mandava uns bitaites sobre as coisas, igualmente parvas, que estavam a passar na televisão. Não era grande coisa, mas já era um começo.

Ana Rita Sintra

Os Invulgares

One Response to "A pensão da Pachacha, por Ana Rita Sintra"
  1. José Serra diz:

    Soube acicatar a curiosidade sobre a vida dos outros, para acabarmos por nos rever.
    Teve a virtude de fazer-me relembrar que, afinal, estamos de passagem por esta pensão… donde partiremos sós.

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