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Chegou a casa cansada até à ponta dos cabelos. Mal abriu a porta, seguiu para o quarto, encostou a mala aos pés da cama e atirou-se para cima da colcha fofa, esborrachando a cara contra as almofadas. Não conseguia respirar lá muito bem assim, por isso fez o esforço de virar a cara para o lado. O quarto dela cheirava bem, a uma mistura de aromas de maçã, canela e mirtilo, provenientes das velas que tinha acendido constantemente nos últimos dias.

No entanto, passados uns segundos ou minutos ou até horas — não tinha bem noção do tempo na névoa de sono em que se encontrava —, começou a sentir o cheirinho típico da comida caseira da mãe, que lhe fazia palpitar de contentamento as narinas e as papilas. Era bom, e apercebeu-se de que já deveriam ser quase horas de jantar. Será que a mãe tinha dado pela chegada dela? Nem tinha dito nada…

Viviam na mesma casa, mas parecia que mal se viam ou falavam. Devia ser normal para os irmãos, que passavam a vida agarrados ao ecrã do computador, qual máquina de suporte de vida, mas ela era diferente… ou não? Por acaso, agora que pensava nisso… a verdade é que passava cada vez mais tempo isolada no quarto. Era ali que se juntavam todos os interesses dela. A reunião familiar havia muito tempo que ficara limitada aos cada vez mais raros casos em que todos se juntavam para comer à mesma hora. Mais parecia «a pensão da Pachacha», como dizia a mãe. Sinceramente, não percebia de onde vinha a expressão — provavelmente prender-se-ia com alguma história da infância, em Campo Maior. Mas conseguia perceber que a mãe não gostasse  de ver cada um chegar quando lhe apetecia. O pai já nem a avisava: era pior do que os filhos neste aspeto.

Não gostava de ver a mãe naquela situação, por isso tentava ajudar sempre que podia. Mas eram mais frequentes os dias em que chegava com o peso do cansaço a dar-lhe cabo do corpo e, principalmente, da cabeça. Bem, vendo melhor as coisas, até podia estar fisicamente pronta para o que desse e viesse, mas a mente fazia parecer que tudo lhe doía, mesmo não sentido dor nenhuma. E era difícil resistir àquela cama tão fofa. Adormeceu.

Quando foi jantar, já os irmãos tinham comido e desaparecido para dentro das tocas escuras. Hibernavam no inverno e estivavam no verão. O pai tomava um cappuccino que ele próprio fazia religiosamente, e a mãe já não dizia nada. Já estava habituada. Já estavam todos.

— Por que não me chamaste para vir jantar? — perguntou, com a irritação dos recém-acordados.

— Eu chamo sempre! Vocês é que não vêm quando chamo!

Como poderia ela saber, se estava a dormir? Sentiu-se zangada e olhou para a mãe. Também estava zangada e cansada de se repetir. Naquele momento, partilhavam o mesmo tipo de cansaço. Decidiu abraçá-la, só porque sim. A mãe protestou, fosse por já não ser uma criancinha, fosse por a comida já estar fria. Mas, depois, devolveu o abraço e sorriu nas costas da filha. Quando terminou o abraço, escondeu o sorriso, não fosse a filha pensar que aquilo resolvia as coisas.

A filha sorriu e disse uma parvoeira qualquer. Já não se sentia tão cansada. Comeu rapidamente e ajudou a lavar e a limpar a louça. Para variar, sentou-se com os pais no sofá da sala, enquanto escrevia no portátil. De vez em quando, mandava uns bitaites sobre as coisas, igualmente parvas, que estavam a passar na televisão. Não era grande coisa, mas já era um começo.

Ana Rita Sintra

Os Invulgares

One Comment

    • José Serra

    • há 7 meses

    Soube acicatar a curiosidade sobre a vida dos outros, para acabarmos por nos rever.
    Teve a virtude de fazer-me relembrar que, afinal, estamos de passagem por esta pensão… donde partiremos sós.

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