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Às 6h30 da manhã estou no café a ver as lindas notícias da televisão e a ler Tartaglia. Tartaglia é um matemático italiano do século XVI. Era um génio e um patife. Há muitos cientistas e artistas que são grandes génios e que são patifes. É um problema complicado. Os textos que leio de Tartaglia são sobre balística. Saber se a trajectória de uma bala disparada começa por ser um segmento de recta e é depois uma curva ou se é sempre uma curva. Tartaglia concluiu, contra os dados dos sentidos, que é sempre uma curva, a menos que a arma seja disparada na vertical, para cima ou para baixo. Não me passa pela cabeça andar aos tiros.

O teatro ensina a sobreviver. No ano lectivo de 1986-87 fui aluna da cadeira de História de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa. O professor era o encenador Osório Mateus. Aprendi muito com Osório Mateus. Osório Mateus tinha fama de tirar as canetas aos alunos porque detestava ver os alunos a tirar apontamentos passivamente. Nunca o vi tirar canetas. Ouvi-o dizer que a vida de professor lhe tinha ensinado «as virtudes pedagógicas do berro». Mas também nunca lhe ouvi berros. Graças a ele, li peças de teatro de escritores românticos alemães. Li O Preceptor de Lenz e Nathan, o Avisado de Lessing. Li estas peças em edições francesas bilingues porque não leio alemão, nunca estudei alemão.

Osório Mateus gostava muito de Gil Vicente.

Osório Mateus era bondoso. A qualidade que aprecio mais numa pessoa é a bondade, não é a inteligência. Acho que a bondade é que é a suprema inteligência.

Osório Mateus dizia três coisas a respeito do trabalho intelectual que nunca esqueci: é importante trabalhar sobre trabalho; é importante mexer nas coisas; é conveniente fazer uma coisa de cada vez.

Tenho verificado que, quando tenho um problema difícil a resolver, é mais fácil para mim resolver dois problemas difíceis ao mesmo tempo do que só um. Uma coisa de cada vez não funciona muito bem para mim. Duas coisas ao mesmo tempo funciona melhor. Pascal resolveu um problema muito difícil de matemática quando estava com uma grande dor de dentes. Começou a ter a dor de dentes, lembrou-se de tentar resolver o problema de matemática e, quando acabou de resolver o problema de matemática, a dor de dentes tinha passado.

É importante trabalhar sobre trabalho. Também é importante sonhar, cismar e repousar sobre trabalho. Os surrealistas diziam que sonhar é trabalhar.

Não estou a desconversar nem estou com espírito de contradição, estou só a pensar.

Com Osório Mateus, aprendi também que, quando vemos um espetáculo, devemos perguntar: quem paga? Um espetáculo custa dinheiro a montar. Alguém pagou. Não há comédias nem tragédias de graça.

Para o teatro de Gil Vicente, de Shakespeare, etc., pode não haver dinheiro. Para o teatro de guerra há sempre dinheiro. Isto é sem cura. Sá de Miranda, contemporâneo de Tartaglia, remata assim um soneto lindíssimo sobre as estações do ano, sobre o tempo, sobre a mudança que ocorre no tempo.

Comments(2)

  1. Foi bom ler, logo pela manhã, esta bela crónica. Obrigado.

    • Kicha

    • há 5 anos

    Continuo a ler muito interessada as suas pequenas crónicas, que provam que a extensão nada tem a ver com a importância, a actualidade, a sensibilidade da autora.
    Há coisas estranhas;um tio meu, matemático, uma vez solucionou um problema sonhando com ele. Impressionou-me, na altura. Nunca solucionei nada em sonhos, ou porque não sou matemática, ou apenas porque não me interesso tão intensamente por nada!
    Seja como for, as suas crónicas fazem-me pensar (não sonhar), obrigam-me a pensar e são tão simples……….
    Obrigada

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