D. Emília, por Carolina Andrade

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Na primeira vez em que a visitei, não pude deixar de me sentir intrusa na vida privada daquela senhora, quando dei por mim a bisbilhotar a folha de medicamentos prescritos e as páginas das últimas análises coladas na porta do frigorífico. Ao ouvir os passinhos arrastados que se aproximavam da cozinha, desviei o meu olhar dos papéis e fiz de conta que estava a olhar pela janela.

— Não tens fome, filha?

Ela fazia sempre isto. Quando tinha fome, perguntava-me se eu queria comer. Quando tinha frio, mandava-me colocar um xaile pelas costas. Não tardei muito a aprender que aquela senhora nunca dizia diretamente o que queria. Era preciso que adivinhássemos, para depois ir ao encontro dela com uma sugestão casual: «Sim, ia perguntar-lhe se tem vontade de me acompanhar num lanchinho». Hábitos de uma vida inteira são difíceis de quebrar. Abri o frigorífico à procura de algo adequado ao lanche. Senti um odor azedo.

Foi num verão muito quente que a conheci. A nossa única arma contra o calor era uma ventoinha que só funcionava a meio gás, e que tínhamos de transportar connosco quando mudávamos de divisão. Normalmente, passávamos o dia na sala pequena, por ser a divisão mais fresca e acolhedora, ouvindo rádio e folheando revistas sobre personalidades da televisão. Quando nos tornámos confidentes, consegui que me ensinasse a fazer crochet. As paredes da sala exibiam quadros com fotos antigas de familiares já falecidos. A parede a sul estava quase toda tapada pelo móvel das loiças e dos bibelots. Também tinha muitos livros, mas eram poucos os que não estavam escritos em francês. Haviam pertencido ao marido. Agora não eram mais do que lombadas decorativas e prateleiras para o pó.

— A dona Emília nunca aprendeu a falar francês?

— Para quê? Ora não estamos em Portugal?

Dona Emília era muito mais velha que a minha avó. Já não conseguia calçar as meias sozinha, e a família dela achou que contratar uma companhia simpática e vigilante seria uma etapa necessária antes da inscrição definitiva num lar. Soube disto pela própria, que o disse num tom irónico de quem sabe que lhe estão a passar a perna. A velha senhora era desconfiada; pedia-me insistentemente que lesse os folhetos informativos dos medicamentos e que lhos relesse, quando volta e meia se tornava a esquecer. Isto para ter a certeza de que não tomava nada mais do que o necessário.

— Uma vez tentaram que engolisse uma porcaria para a memória. O que eles querem sei eu bem!

Nos primeiros dias em que estive naquela casa, também me espiava os movimentos: não lhe agradava estranhos no espaço dela. Até uma manhã em que, ao calçá-la, dei por mim enternecida com o estado em que tinha os pés. A unha grande estava encravada e magoava-a com certeza; outra estava escura; e todas, compridas. Compadeci-me perante aqueles pés velhos, tortos e calejados. Ao comparar o tom da minha pele lisa e bronzeada com a de Emília, acinzentada e seca, revoltei-me com a injustiça que lhe tinha sido feita. Não sei o que mais me agitou: a impiedade do tempo, ou que ninguém cuidasse daqueles pés sempre escondidos com vergonha de se mostrar. A velhice obriga-nos a engolir dores em seco. Disse que lhe iria fazer uma pedicure. Olhou para mim perplexa, e receei tê-la constrangido. Mas Emília consentiu, acrescentando que ficaria agradecida. Mais tarde, perguntou se eu gostaria de rezar o terço com ela. Às seis da tarde, ligámos o rádio e acompanhámos a emissão do terço. Tornou-se um hábito; com ou sem rádio, ela dirigia a oração e eu seguia com as «santas-marias». De vez em quando, adormecia a meio do terço, e eu ficava a rezar sozinha.

Um dia em que estava especialmente bem-disposta, propôs que fôssemos à praia.

— Metíamo-nos no 203 e, em meia-hora, estávamos lá. Era assim que eu fazia há uns anos. Depois comprávamos um peixinho na praça e voltávamos a tempo de o fazer para o almoço.

Eu sabia que aquilo estava para lá do que o corpo frágil dela permitia. Disse-lhe que a praia já não era como antigamente, que estava abarrotada com estrangeiros, a tal ponto que já nem a toalha se podia estender. Ela não ligou muito ao comentário. De olhar perdido, suspirou:

— O tempo não anda para trás, filha. A praia lá e eu aqui.

Carolina Andrade

Os Invulgares

2 Responses to "D. Emília, por Carolina Andrade"
  1. José Serra diz:

    Uma onda interior golfando de ternura, e o olho esquerdo um pouco mais húmido que o direito; vá-se lá saber porquê.

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