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Pela praia. Sozinho. À procura de liberdade, mas talvez enlouqueça primeiro. No inverno a ondulação é possante, a água escurece e tudo fica mais lento. O mar mantém-se imperfeito, dia após dia. Tudo isto é mar, dantes azul. O vento frio roça-se na cara barbuda. Recordo os ventos que outrora traziam o perfume dos campos quentes do Algarve. A terra do meu amigo. Que saudades tenho do Zé dos cães e das suas histórias. Gostava de que aqui estivesses. O Zé sabia de onde vinham as ondas e para onde iam. Dizia que ninguém surfa para sempre. Dizia ainda que nesta humanidade infame estamos sempre sozinhos. Que não se pode confiar em ninguém e que, quando o grande dia chegar, o melhor é estar preparado. Dizia ele que existe, lá fora, uma onda com o nome de cada um de nós. O Zé era um selvagem moderno em busca da derradeira viagem. Quando penso nele parece que nem existo. Há outros seres humanos que nos mostram como somos miúdos. A vida tem um louco sentido de humor. Estranho mundo. Também eu, agora, espero encontrar a minha onda. A que tem o meu nome. Quero estar preparado. Espero o momento em que a existência fará significado. Os dias passam e passam. Já não sei quantos. Só quero ir lá para fora para pertencer à gélida melodia das vagas. Imagino que o ápice se aproxima. Num dia destes partirei para o mar e escutarei a decisão. A ansiedade passará e serei majestosamente feliz. Quando a luz chegar, pela corrente serei levado. Lá para fora. Alegro-me só de pensar. Sei que, nesse dia, não irei mais voltar a terra, mas, sem medo, deixarei de suster a respiração. Tudo fará sentido. Não precisarei mais procurar. Terei encontrado o inverno interminável.

Hélio Sequeira

Os Invulgares

Comments(2)

    • Toto

    • há 3 meses

    Lindas palavras! Adorei.

      • Hélio Sequeira

      • há 3 meses

      Obrigado pelo comentário.

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