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Não sei se alguma vez se cruzaram com um diospireiro adulto no outono. Por aqui, onde vivo, vejo muitos, mas jovens, baixinhos, de copa arredondada e tronco débil. Conheci em tempos um, gigante e velho, isolado num campo raso, estendendo troncos para cima e para os lados com a robustez serena de quem pode e sabe impor-se aos céus e à terra. No outono, as cores ao alto de um diospireiro adulto são de molde a recordar que os deuses existem e se despenham suavemente sobre o chão feito para nos receber. Quando eu era menina e as palavras não me chegavam, havia no outono este diospireiro erguendo-se num campo raso, em que ninguém reparava. Nem mesmo eu, se excetuarmos a parte de mim que distraidamente ia fabricando memórias para a frente. Parte pequena, que não me impedia de brincar por ali com primos e irmão; o diospireiro, a passos de nós, erguendo-se indiferente sobre a nossa indiferença. Atada ao vultoso tronco do diospireiro, costumava estar uma cabra de pelo castanho, curto e grosso, o ventre bojudo. Estava ali, ora de pé ora deitada, tasquinhando continuamente a erva à volta. Ao lado do diospireiro, um caminho, e do outro lado do caminho, dois ou três carvalhos cortados pela base. De novo cheios de rebentos, eram casas de brincar, para mim e para a prima. O redondo dos troncos cortados: mesas e bancos. Cacos de vidro, pedaços de tijolo e telha, bugalhos, galhos, folhas, musgo: loiça, talheres e comida. Ao longe, os rapazes corriam de varas na mão e gritavam. Um pouco à frente, a figueira de figos brancos. Trepávamos por ela para alcançarmos os figos pingo de mel, até que os lábios nos ardessem insuportavelmente, e as mãos, meladas e encardidas, se colassem ao tronco, ameaçando arrancar pele. Sempre no outono.

A figueira alinhava com a esquina da casa; uma daquelas casas nascidas de dentro para fora. A escada lateral dava acesso a uma varanda, bastante ocupada de vasos com plantas, floridas às vezes. A casa por fora não tinha outro relevo, e por ali se tinha acesso ao interior, no primeiro andar, mas via-se também o quintal, em baixo. A varanda é uma ferida e a casa dobra-se naquele ponto sobre si própria; os vasos deslizam devagarinho para dentro da dobra que é uma ferida: a varanda. Eu estou lá no alto, recém-chegada de outras paragens, um pouco estrangeira, portanto; loira, deslavada e franzina. Ladeiam-me, quase encostadas a mim, as primas que ali moram desde sempre, morenas, quietas como eu. No quintal, um enorme porco cor-de-rosa, atado pelos pés e forçado à horizontalidade por uma roda de homens calmos contra os guinchos agudos e aflitos do porco desesperado por soltar-se. O meu pai não era um estrangeiro como eu, era um regressado; dali partira e ali se esforçava por regressar. Estava necessitado de prestar declarações, porém; que regressar não é questão de simplesmente estar de volta. O facalhão apontado ao pescoço do porco, cujo corpanzil gordo e cor-de-rosa se agitava; a adrenalina no joelho esmagando as costelas do porco; tudo eram provas prestadas, demonstrações de regresso a fazer. Lá no alto da varanda, que se ia convertendo em ferida e forçando a casa a dobrar-se sobre si mesma, eu e as primas encostávamo-nos mais umas às outras, agarrávamos muito devagarinho a trave horizontal da varanda e os nossos corpos tornavam-se rígidos como discos de memória. Lá em baixo, à volta da roda dos homens, uma roda de mulheres tinha prontos alguidares, tripas espalmadas, sal, funis de boca larga, cominhos, tudo para fazer os enchidos. Falava-se, ordenava-se, dispunha-se; as mulheres falavam, os homens falavam segurando o porco, todos se vigiavam, e o pai com o joelho submerso nas costelas do porco afundou o facalhão no pescoço do animal, que guinchou ainda mais, e mais se contorceu, até conseguir. De facalhão espetado no gordo pescoço, o porco soltou-se por fim dos homens, do meu pai. Como uma bailarina, de pés atados, ondulou pelos ares esguichando sangue em volta, e veio cair ao lado da bancada improvisada no quintal. Gritos, recriminações, passos à frente e atrás, risos nervosos.

Diante de um alguidar cheio de sangue fumegante, o verbo desmanchar com novo sentido. Espreitei a alegria das mulheres ao mergulharem as mãos nas carnes exalando vapores de alho, sangue e cominhos, para encherem as tripas pelo funil de boca larga. Uma alegria insuflada de pressa, fumo, sal e suor. Diferente da alegria leve e sossegada com que desdobrariam o alvo pano para descobrirem a alva renda do serão, depois de passarem as mãos demoradamente por limão. Muito limão.

Era outono um dia; eu e a prima brincávamos às casinhas entre os rebentos de carvalho. Concentradas nas invenções necessárias, a parte de mim que fabrica memórias para a frente comovia-se com o estado fogoso do diospireiro contra o céu azul, derramando-se assim suavemente sobre a terra. A cabra do ventre bojudo estava lá e, quando passou o avô da prima, a cabra estava deitada e não mastigava. O avô da prima é uma figura de cartolina preta com chapéu, capote e cajado. Tão silencioso quanto uma figura de cartolina preta. No momento em que passou entre nós e a cabra sob o diospireiro, o avô da prima desviou-se em direção à cabra. E nós levámos as invenções de casa e comidas para lá também. Os rapazes ao longe corriam sempre; corriam, escondiam-se, assomavam e gritavam. O avô da prima agachou-se agarrado ao cajado com uma mão, e estendeu a outra para ajudar a cabra a expulsar do ventre dois ou três cabritos, que ali ficaram no chão ao alcance do focinho da cabra. Continuei a inventar com a prima realidades alternativas em torno de cacos e bugalhos, mas o meu estômago começou a transformar-se noutro órgão, mais parecido com os pulmões de uma rapariga de romance romântico, prestes a tossir sangue por amor. Pessoa avisada estará agora pensando que as cabras não são de parir no outono. Talvez não sejam, o que é totalmente irrelevante, porque o meu diospireiro adulto em campo raso há muito foi abatido e agora, tenham paciência, no céu que lhe coube após a morte, que é a minha memória, será sempre outono, nascerão sob ele, repetidamente, dois ou três cabritos com a ajuda de uma figura silenciosa e agachada, de cartolina preta.

Era primavera, porém, quando aluguei quarto no bairro de Alvalade, em Lisboa. Terceiro ano da faculdade, penso. Cheiro a imundície entranhada, família miserável. Estava eu a estudar Petrarca enquanto almoçava uma taça de Cerelac e me esforçava por ignorar o cheiro da casa, quando se ouviu o som da campainha. Um dos miúdos veio chamar-me ao quarto levantando nuvens de cotão e cabelos: era para mim. O meu irmão aguardava do outro lado da porta, igualmente atingido pelo cheiro da sujidade, preferindo-o, talvez, aos percevejos do quarto onde também estudava. Arremessou-me, antes de voltar costas: A prima morreu. Era primavera, estou quase certa de que era primavera.

Deixei de comer cabrito. Enfim, talvez tenha comido num ou noutro almoço pascal, quando a mãe fez passar por borrego o cabrito que eu me negava a comer. Só de pensar na possibilidade, porém, sinto criarem-se alvéolos pulmonares no estômago, já prontos para esguichar sangue romântico. Plantei também um diospireiro. Há quem regresse a casa para matar saudades. O meu caso é diferente. Fico de vigia ao meu jovem diospireiro, de copa redonda e tronco débil; em cada dia à espera de o ver projetar troncos para cima e para os lados, impor-se aos céus e à terra com a sabedoria dos outonos esplendorosos.

Ângela Correia

(Edição de Nazaré Carvalho)

Comments(2)

    • fernanda

    • há 3 meses

    Maravilha, Ângela Correia! Emocionante! Parabéns.

      • Ângela Correia

      • há 3 meses

      Muito obrigada, Fernanda.

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