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Antes que revires os olhos, não me esqueci de que pediste para não atufar a tua caixa de correio eletrónico. Sei que detestas ver o meu nome no meio dos e-mails de trabalho e das revistas on-line que subscreves; lamento, cara amiga, acontece que não encontro o carregador do telemóvel em lado nenhum. Esta é a única via que tenho para te dizer que passei mal os últimos dias. Apanhei uma amigdalite que deu cabo de mim. Não estou a exagerar. Se o andar de baixo não fosse arrendado por uma boa samaritana, encontrarias o meu cadáver estendido e arrefecido no chão da sala, enfiado num pijama de flanela ridículo. Dou-te uma lista do que comi nos últimos três dias: uma banana, dois iogurtes, uma batata cozida e canja feita pela vizinha. Por isso, faz um esforço gentil para não deixar escapar uma expressão de choque quando me vires ainda mais esbelto. Se prescindisses de me comparar a um palito ou a um maldito esparguete, seria igualmente agradável. Desde já agradecido.

Já estou melhor, pelo menos da amigdalite. Se quisesse, poderia sair de casa e comprar pão ou uma raspadinha. Mas não me apetece. Carrego um peso que me faz arrastar os pés pela casa. Estou à espera de me sentir um pouco mais espirituoso. É curioso, um pouco injusto, que não se vejam por aí vírus de boa índole. Imagina: fulano tal ficou de cama uma semana, apanhou uma virose manhosa, não consegue parar de rir. O chefe mandou-o para casa. Não te parece que o mundo seria um lugar melhor? Era de uma coisa assim que eu precisava. Que um nanobicho me fizesse umas cócegas boas na barriga. É que estou aborrecido, Ana. Passei o tempo todo a ver televisão e fiquei embrutecido. Não há um único programa que não explore o ego ou a miséria humana. É  deprimente. Mas ver TV foi a única maneira de desviar a atenção de uma imagem que me atormenta desde sexta-feira. Antes de mais, lembras-te de uma manhã em que passeámos na Fonte da Telha? Foi há uns meses. O Tomás estava connosco e apeteceu-nos ver o nascer do sol. Antes de voltarmos para o teu carro, vi um carapau à beira-mar. Reparei nele porque esperneava. Aconteceu que, há duas noites, estive imobilizado na cama por causa da febre. Os meus vizinhos do lado discutiram até às três da manhã e não consegui adormecer enquanto eles não se calaram. Eu estava encharcado em suor e tremia de frio. Fui sacudido de calafrios e senti que o esforço necessário para coçar a orelha ou o nariz era excessivo para mim. No meio da bruma febril, voltei à imagem do carapau da Fonte da Telha. E senti compaixão pelo peixe, ou talvez tenha sido pena de mim próprio; por estar só, impotente e condenado. Acordei melhor na manhã seguinte, mas continuo a matutar na cena do peixe. E a cena ganha cada vez mais pormenores. O olho dele contra a areia, o outro a contemplar o céu nublado; a asfixia lenta pautada pelo abrir e fechar inútil das guelras; a secura aumentada pela ascensão gradual do sol da manhã. E sabes o pior de tudo? Dou voltas à cabeça e não consigo ter a certeza de ter colocado o peixe de volta na água. Não me lembrar é pior do que não o ter feito. A indiferença é o pior de todos os males. Talvez seja loucura deixar um carapau questionar todo o meu caráter. Não penses que digo isto sem uma risada de frustração. O que eu quero mesmo dizer é que, se quiseres, passa por cá, Ana. Davas-me um pretexto para arrumar um bocado as coisas e fazer uma refeição decente. Tudo menos peixe.

Carolina Andrade

Os Invulgares

One Comment

    • Manuel João Sá

    • há 4 meses

    Muito bom, Carolina. Gostei imenso. E agradeço, pois fica-se melhor com uma “coisa” assim, tão bem escrita. É isso, fiquei melhor, para o que me resta do dia, e ainda é muito. Obrigado.

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