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O calor na sala de receção é quase insuportável. A luz penetra na sala através da parede de vidro, tornando a divisão numa estufa. As cadeiras dão as costas à parede de vidro, expondo os ombros e o pescoço à onda de calor. Ele sente o suor a molhar a t-shirt na zona das axilas, e o couro cabeludo húmido provoca-lhe comichão. Há uma ventoinha em cima do balcão de atendimento. A única combatente contra o aumento da temperatura. Ainda são 11 h da manhã; vai piorar. Num movimento incansável de 180 graus, vai e volta; a ventoinha não tem potência suficiente para refrigerar o perímetro. É uma luta inglória.

Foi uma amiga que lhe passou a morada, assegurando um atendimento anónimo e sem custos. Aqui não há senhas. Não há fichas a preencher com dados pessoais, não há assinaturas nem perguntas. «É só sentar e aguardar» disse a senhora atrás do balcão com um sorriso profissional. «Ela já sabe por que estou aqui». A esta clínica só se vem por um motivo.

Dá para ver que tentaram fazer disto um lugar simpático. E parece sê-lo, à primeira vista. Mas os minutos passam, e ele descobre pequenos sinais de podridão. A planta moribunda por excesso de água, e os caramelos derretidos dentro do plástico transparente numa taça em cima do balcão, também eles à espera há deus-sabe-quanto-tempo. Na sala de espera, estão sentados mais dois rapazes. Um está a dormir, com o queixo caído sobre o peito. O outro folheia uma revista. Parece descontraído. Na capa da revista está escrito em letras grandes e brancas: «O Que A Sida Fez Por Nós». O rapaz tem os olhos pintados de sombra azul, unhas longas, bem tratadas, e rumina uma pastilha elástica. Troca com ele um olhar acidental e sente-se constrangido. Quase intimidado. O rapaz dos olhos pintados parece seguro de si, como se fosse habitué da clínica. Desejou ter aquele à-vontade de perna cruzada e olhar vago de quem lê uma revista na diagonal. Já tinha visto aquele olhar noutros lugares. Nas mulheres que arranjam as unhas no salão de estética, ou no dono do café da rua com A Bola nas mãos. A calma e confiança de quem não faz mais do que o habitual. Retirou o desejo. O à-vontade requer repetição, e ele não queria mais ocasiões que proporcionassem familiaridade com a clínica.

Sentiu a urgência de se levantar e ir embora. A espera estava a dar cabo dele. Poderia fingir que atendia uma chamada; falaria alto e diria «Estou já a ir». E livrar-se-ia do peso da ansiedade, daquele calor infernal, do olhar do rapaz com os olhos pintados, que ainda o observava. Mas não conseguiria aguentar mais noites de sono interrompido pela dúvida e o medo. Tinha de fazer o teste e saber o resultado. «É supersimples, Bernardo, vais lá e dão-te uma pica mínima. Nem sequer dói. Quinze minutos e já está». Sentiu-se subitamente irritado. Estava-se nas tintas para a dor da picada. Pensou no caminho de regresso a casa. Meia-hora de comboio, meia-hora de autocarro, um quarto de hora a pé. Seria uma eternidade de angústia, se o resultado fosse positivo. Um homem atravessou o corredor e pôs-se quase à frente dele. Não tinha bata e sorria exageradamente. «Vamos lá, então?».

Carolina Andrade

Os Invulgares

Comments(2)

    • José Serra

    • há 1 mês

    Para a morte, para o tormento que a adia, ou para a vida que a faz esperar um pouco mais?
    Analítico, faz-nos sentir na pele do utente.
    Foi-me saltando à ideia como seria a história se a personagem angustiada fosse “Ela a sentir o suor…”
    Prendeu e acicatou a imaginação.

      • Carolina Andrade

      • há 1 mês

      Muito grata pelo comentário, José.

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