Guinada de saudades, por Ana Rita Sintra

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Na altura não liguei muito. O que diria o meu pai se eu lhe dissesse que andava a imaginar coisas no trabalho? Ele até é muito querido comigo, exceto quando parece que estou a dar desculpas para não fazer a ponta de um corno. Aí, sim, é um ver se te avias. Por isso, tentei não ligar às luzes que piscavam e que se acendiam e desligavam sem mais nem menos, sem nenhuma explicação. Nem aos barulhos estranhos que não conseguia perceber, apesar de me fazerem lembrar alguém a falar. Já para não falar dos objetos que pareciam mudar de sítio.

Deixei tudo passar, na esperança de que fosse só cansaço e falta de atenção. Há sempre uma explicação, eu é que andava demasiado distraída para a ver. Desde que a mãe teve o acidente há seis meses, deixei os estudos para ajudar o pai no café. A princípio protestou, mas eu fiz finca-pé e, quando a avó morreu pouco tempo depois, como se não suportasse viver mais tempo que a filha, ele já nem tinha mais forças para discutir. Só me apetecia gritar «então e eu?!», mas engoli e guardei as frustrações com cadeado de combinação. Só que, ultimamente, parecia andar mais cansada e farta que o habitual. Foi quando começaram os acontecimentos estranhos.

Quando a filha da Sr.ª Josefa veio com o avô ao café para tomar um garoto (eu só deitava uma pinga de café para dar cor, como o avô pedia para a menina), é que comecei a levar aquilo mais a sério. Se calhar, os barulhos não vinham dos andares de cima do prédio. Se calhar, não tinham sido os miúdos da zona a escrever «Sai ou morre!» no vidro embaciado da janela, na parte mais difícil de alcançar. Se calhar, passava-se mesmo qualquer coisa. Foi o que pensei, depois de ver os olhos da boneca que ela nunca largava começarem a derreter à minha frente.

A memória apareceu mais rápido que um Sonic a fugir de um tsunami. Ainda nem devia ter seis anos quando vi a parte preta dos olhos do meu peluche do Pikachu começar a escorrer para a parte branca. Fiquei paralisada a olhar e lembro-me de pensar que só podia estar a ver mal. Tinha olhado para a porta, cheia de medo, e voltado outra vez a olhar para o Pikachu: os olhos pareciam cada vez mais escuros e derretidos. Não era mesmo imaginação minha! Desatei a correr para contar à mãe e já não me lembro do que vi quando voltámos para o meu quarto juntas. Só sei que o Pikachu foi direitinho para o sótão da casa da minha avó e eu nunca mais o vi.

Aconteceu o mesmo com a tal boneca, mas quando pisquei os olhos já estava perfeitamente normal. Continuei a tentar engolir e ignorar, mas já era mais difícil. Precisava de me DIS-TRA-IR. Para isso, nada melhor que rever, pela milionésima vez, Gossip Girl: segredos, intrigas e guarda-roupa de bom gosto da alta sociedade nova-iorquina. Adoro a personagem Jenny Humphrey e as roupas que ela faz. Quem me dera que as minhas ideias conseguissem sair do papel como as dela. Passei o resto da noite resignada, mas descansada.

No dia seguinte, fiquei de fechar o café, que o pai ia dar boleia à Adelina. O marido metia-se nos copos mais vezes do que eu vendia cafés. Era uma lástima. E exatamente ao pensar nisto, ouço os copos a tilintar dentro do armário espelhado. Penso em copos e eles batem uns nos outros?! Ou eu tinha novos poderes psíquicos ou tinha-me passado bem passadinha. É claro que fui lá ver. Ai, meu Deus! Não me digas que eram bichos?! Abri a portinha devagar e cautelosa. Não eram. Mas vi qualquer coisa refletida no espelho do armário. Era uma sombra, negra que nem uma tosta queimada, a espreitar pela porta que ia dar à arrecadação lá em baixo. Virei-me tão depressa que, por pouco, não parti um copo. Não estava lá nada. Credo, tinha mesmo de parar de pesquisar sobre coisas fantasmagóricas na Internet.

Virei-me para fechar a portinha e sair dali para fora, mas vi-a outra vez. A sombra refletida no espelho, no mesmo sítio. Não fazia sentido. Fechei a caixa, enquanto arrancava o avental. Peguei nas chaves e no casaco e corri para a saída. Antes de debandar dali para fora, decidi que tinha de ligar ao meu pai. Ele tinha de me ouvir desta vez. Vasculhei os bolsos à procura do telemóvel a toda a brida. Ele atendeu ao terceiro toque, quando eu estava prestes a desistir. Devo ter contado tudo num tom demasiado histérico, porque ele respondeu-me aos gritos que não estava a acontecer nada e que eu só tinha de ficar quietinha e respirar fundo. Fiquei em silêncio com o telemóvel entre a mão e a orelha. Só se ouvia o brinco a bater contra o ecrã enquanto me encostava à porta fechada. Depois ele disse que vinha. E eu fiquei à espera.

Já um pouco mais calma, fui até à porta da arrecadação e desci.

O meu pai chegou mais tarde. Não sei, ao certo, quanto tempo passou, só sei que ele parecia preocupado quando entrou na arrecadação. Tinha a testa cheia de vincos e arregalou tanto os olhos que, se pudesse, até me tinha rido da expressão dele. Parecia um peixe inchado com os olhos fora de órbita. Queria dizer-lhe isto mesmo, para ver se ele arrebitava, mas também não fui capaz. Não olhou para mim, nem uma só vez, e foi-se embora desvairado. Senti uma incompreensível guinada de saudades. E não me lembro de sentir mais nada.

Ana Rita Sintra

(Os Invulgares)

 

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