Outubro, por Luís Ramos

Posted · 1 Comment

«No início, Deus disse que se fizesse luz». Mas de onde proviria a luz que deveria ser dada aos nossos olhos? Este facto permanece vago, quando se trata de determinar propriedades de elementos abstratos que não conseguimos compreender. No entanto, quando nos aproximamos do concreto, é possível identificar um lugar. No caso do senhor Silva, por exemplo, uma lareira onde o fogo produzia a luz. A luz que iluminava o escuro que absorvia o quarto. A luz contida no interior da lareira. Contida? Mas é possível encarcerar a natureza? E a natureza respondeu-nos, a nós, narradores desta história, que não. Como? Do fogo que a lareira mantinha expeliu determinadas fagulhas como se fosse apoderar-se da casa na ausência do legítimo proprietário. As primeiras fagulhas atingiram o tapete arredondado sobre o qual repousava uma pequena mesa de madeira. Outras que se seguiram penduraram-se nos cortinados como princesas a descer uma torre mágica. Os cortinados que pendiam sobre o sofá. Um sofá sob o qual se estendia um tapete. Um tapete sobre o qual se estendia uma manta derrubada da cama mas nela firmada.

Passadas algumas horas, supondo nós que foram horas, o quarto expulsara de si a natureza e enviara-a para as outras divisões da casa. O quarto de hóspedes requintadamente mobilado. A cozinha que fora remodelada havia pouco tempo. A casa de banho. E num movimento de exteriorização, como uma ideia que se aplica, forma que se dá à matéria, o fogo então formado penetrou na garagem onde residia um gato, obrigado a escapar pela janela aberta, e um Mercedes clássico de 1960, que custara o dobro da casa.

O senhor Silva, empregado numa firma de advogados, prepara-se para sair do escritório, entrar no automóvel e conduzir até casa onde, depois de almoçar, tornará ao ofício. Pratica esta rotina como um ritual de que não tem nenhuma consciência. Os colegas reúnem-se em grupos e almoçam sempre num restaurante que fica defronte do prédio onde trabalha. O senhor Silva habituara-se às dificuldades que a vida lhe impusera, derivadas da sociedade aldeã que o criara e da situação económica desfavorável dos pais, ambos agricultores tradicionais, que das cenouras e das couves plantadas tinham tirado um curso de Direito para o filho. Passados vinte anos depois de começar a trabalhar na firma, a vida permitia-lhe a concretização do ideal. Aquele luxo que considerava ser o necessário, pago com horas extras, feriados, férias – tornara-se o seu maior bem. Aquilo que vivera e acumulara durante anos era o que permitia a existência de um sentido concreto para a vida, um sentido que sustentava uma perspetiva de futuro para os seus 60 anos.

Ainda assim, como estávamos dizendo, esse entre outros hábitos de almoçar em casa não desaparecera, pelo que virando à direita no cruzamento seguinte encontrará a estrada ladeada por pinhal que o conduzirá ao destino. Enquanto conduz, o senhor Silva olha para o céu pensativamente. Olha para o céu e começa a ver raios de fumo. Um momento ataca-lhe o coração e a mente. A consciência começa a figurar possíveis cenários. Acelera o automóvel. Para. Abre a porta. Fecha a porta. Olha… mas a nuvem de fumo não o deixa ver bem. Tenta perscrutar algo para além daquele negro que abafa os olhos. O senhor Silva deixou de ser corpo. O corpo que aquele negro lhe retirava. Agora o senhor Silva é apenas sentimento. Sentimento puro. E esse sentimento que é ele move-se para dentro do fumo. Diz-lhe para pegar na mangueira. Abre a torneira que não tem água. Recua. Dirige-se para uma oliveira que ali estava perto e debaixo da qual guardava três garrafões com água. Traz vagarosamente os garrafões para junto do carro. Novamente dentro do negro abre um garrafão. Aproxima-se da casa e começa a abanar o garrafão que segura com a mão direita na alça junto ao bocal e com a mão esquerda no fundo. Abana o garrafão como se fosse tocar um sino oriental. Entre o fogo, junto à porta, observa, vagamente, a destruição de um tapete de seda comprado no ano anterior em Damasco.

A vizinhança, cujas casas mais próximas ficavam a alguns quilómetros, telefona insistentemente para os bombeiros. Passam algumas horas e os habitantes daquele lugar começam – passando do não-ser para o ser, passagem imediata – a ouvir um barulho que faz estremecer as cadeiras em que, no exterior das habitações, se acomodam para assistir ao ato.

O carro de bombeiros, seguindo cautelosamente pelo caminho esburacado, desaguou num pequeno largo rodeado de pinhal. Saem dele três homens fardados que se dirigem para a parte traseira do veículo. Observam, entretanto, um automóvel estacionado, com a porta direita aberta. Trocam indicações. Puxando a mangueira, palpando o fumo, caminham em direção à casa que pressentem pela delimitação das chamas. Após alguns segundos, encontram um homem, cansado, velho, chorando e lançando gotas de água de um garrafão que traz entre as mãos. Levando o homem apoiado nos ombros de dois, preparam-se para sair daquele local, invertendo a direção que tinham tomado, quando outro carro de bombeiros chega para começar a apagar o fogo.

No final da noite, um dos responsáveis da missão comunica ao quartel que o fogo se extinguira. O homem encontra-se bem de saúde, mas abalado com o que acontecera – tem ataques de nervos e exaltações de raiva ou choro ininterrupto. A casa, como um bom texto, expulsara tudo o que continha por meio do fogo e reduzira-se a uma estrutura comparável a um dos pinheiros que a rodeava. A idade, o ser – atualizado. Atualizara-se a idade – convertera-se em não-ser.

Luís Ramos

(Os Invulgares)

One Response to "Outubro, por Luís Ramos"
  1. José Reis diz:

    A vida tem de ser feita de tormentos, de inconvenientes, de mal-entendidos. Pois bem, isso é apenas um grau inferior da vida, não é a verdadeira vida. A verdadeira vida é apenas feita de saber viver as pequenas, simples, coisas em plenitude.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *