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Ela continuou sentada na sanita, mesmo após ter corrido toda a água do autoclismo, de bochechas coladas aos punhos e cotovelos assentes nos joelhos. Os olhos estavam cerrados e a expressão era a de quem se vai queixar de uma enxaqueca. Ficou assim, muito quieta, até não conseguir tolerar a dormência nas pernas. Levantou-se, puxou as cuecas para cima e a saia para baixo. Depois de lavar as mãos, olhou para o reflexo no espelho demoradamente. Aproximou a cara até encostar a testa e a ponta do nariz à superfície fria. Assim próxima de si, os dois olhos uniam-se transformando-se num só — o terceiro olho, como ela pensou. Abriu e fechou a boca, mostrando dentes e língua, experimentando feições feias. Parecia um ciclope. Afastou-se lentamente do espelho, enroscou com mais força o manípulo perro da torneira que ainda deixava escapar um fino fio de água. Apoiou as mãos na extremidade da pia e pôs-se séria. Atrás dela, o espelho mostrava a prateleira de parede onde a mãe guardava a coleção de perfumes usados. Alguns exibiam fragrâncias clássicas que condiziam com frascos em estilo dórico, de linhas minimalistas; outros de contornos lânguidos e cores quentes, cujos nomes remetiam para o arquétipo da femme fatale; os mais recentes tendiam a ser frascos baixos e arredondados, com ornamentos naturalistas complicados e flexíveis, de aromas cítricos e florais. Imaginou o que seria se, num impulso, deitasse todos os frascos ao chão. Quando a mãe lhe pedisse explicações, diria que queria sentir a essência de todos os perfumes num só. Disparate. Às vezes, os gestos poéticos confundem-se com os infantis, pensou. Respirou fundo e regressou à contemplação da sua imagem.

Recapitulou os eventos do dia e isto teve o efeito imediato de apertar o nó na garganta que já a sufocava. Sentia-se envergonhada, porque nunca sabia o que dizer nas alturas exigentes e isso fazia dela uma fraca. Frustrava-a não ter controlado a expressão de choro à frente da turma,  transparecendo através de uma flexão de lábio e o arquear das sobrancelhas que as palavras de uma colega maldosa a tinham magoado. Revia-se sentada na sala de aula, de costas tortas, mãos entre as pernas, e sentia uma autocomiseração misturada com um terrível desprezo. Começou a chorar silenciosamente. Não parou de se observar no reflexo, acompanhando o trajeto das lágrimas desde a origem, até ao momento que saltavam do queixo para a blusa. Num pensamento rápido, tão rápido que quase não deu por ele, achou-se bonita. Quando o choro aumentou e já lhe dominava a voz e sacudia o peito, sentou-se no tapete da casa de banho. Abraçando as pernas fletidas, ia-se perguntando retoricamente o porquê de ser tão estúpida. Ficou assim até ouvir as chaves rodarem na fechadura, os saltos altos a calcar o chão de madeira e os sacos de plásticos que roçavam uns nos outros. Reconheceu a mãe, mesmo antes de a ouvir perguntar se já estava alguém em casa. Num esforço para engolir os soluços do choro, respondeu que estava prestes a tomar banho, e que não entrasse na casa de banho porque estava a despir-se.

Levantou-se a custo e inclinou-se sobre a banheira para abrir a torneira da água quente. Tirou a blusa e a saia, atirando-as para um canto, e sentou-se em roupa interior na beira da banheira, esperando que a água a enchesse. Voltou a perder-se em pensamentos sobre o episódio desse dia, até ser despertada pelo grito distante da mãe, que a mandava parar de correr água. O reparo deixou-a  irritada. Tirou o resto da roupa e, pondo um pé de cada vez, deitou-se na banheira.

 A água estava demasiado quente deixando-lhe a pele vermelha. Ignorou a dor. Sentia-se deprimida. Não queria sentar-se à mesa de jantar, nem acordar no dia seguinte para voltar à escola. Era-lhe tudo completamente indiferente. Se acordasse na pele de outra pessoa qualquer, ficaria felicíssima. O vapor quente da água fazia-a suar nas têmporas. Inspirou profundamente e afundou a cabeça debaixo de água. Ali tudo era mais silencioso, transportando-a para longe da casa e afastando os sons de panelas e pratos em colisão, oriundos da cozinha. Abriu os olhos devagar e sentiu umas picadinhas no globo ocular. Quando precisava de respirar, levantava a cabeça para encher de ar os pulmões. Queria ver quanto tempo conseguiria aguentar debaixo de água. Contou primeiro até 40, depois 50, chegou ao 65. Lembrou-se da vocalista dos Cranberries. A Dolores tinha falecido há pouco tempo em circunstâncias semelhantes, submergida silenciosamente numa banheira de hotel. Voltou à superfície, sentindo no rosto o contraste do ar arrefecido. Imaginou como seria se os pais a descobrissem ali, sem vida. Quem tiraria o corpo inerte daquela banheira. Arrepiou-se. Decidiu que nada a faria sentir melhor, nem naquele dia, nem nos que viessem.

Vinda de parte desconhecida, uma mosca sobrevoou o espaço aéreo da casa de banho, sem se fazer anunciar, e aterrou certeira na boca dela. Sacudindo a cabeça, não conseguiu livrar-se do bicho que insistia em orbitar-lhe a cabeça, fazendo aterragens e descolagens sucessivas no rosto. Era tão chata e persistente que a rapariga teve de levantar os braços para a espantar, acabando por molhar o chão e o tapete. Ela já estava exasperada quando a mosca se retirou para o cimo do armário. Foram segundos de total alvoroço, dissipando a atmosfera de tristeza murcha e melancólica. Com a sensação de que tinha sido interrompida num momento de reflexão crucial, ela não soube como se sentir. Olhava para a mosca com irritação, achando-a cínica, naquela súbita quietude irónica. A pequena criatura voadora, menor que uma ervilha, conseguiu estragar qualquer coisa, qualquer coisa que ela não conseguia bem dizer o quê, mas estava  ofendida pela interrupção. Com a mesma facilidade que um prego fura e esvazia um insuflável, ela sentia que o momento tinha sido esvaziado de gravidade. Era isso! As moscas têm a capacidade de arruinar a gravitas circunstancial.  Discursos solenes, consumações de matrimónio, até talvez a Última Ceia, podem ser arruinados pela presença embirrante de uma mosca que decide pousar-nos na boca.

Carolina Andrade

Os Invulgares

Comments(3)

    • Altino M Cardoso

    • há 2 meses

    Não foi bem dito que nessa hora e nessa banheira da professorinha aparecesse uma mosca.
    Pessoalmente preferiria uma borboleta proveniente da janela, ou uma minhoca descoberta no ralo.
    Mas ainda bem que a Carolina deixou de se ralar com o dia miserável na escola.

      • Carolina Andrade

      • há 2 meses

      Uma mosca é sem dúvida menos elegante que uma borboleta. Obrigada pelo seu comentário, Altino. Aproveito para acrescentar que a narrativa é ficcional, não dá conta do “dia miserável” da autora 🙂

    • José Serra

    • há 2 meses

    Introspeção?
    Imaginação?
    Em qualquer caso, uma viagem excelente.
    JAMS

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