Estatelada, por Ana Rita Sintra

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Estas mãos não são minhas. Olho para elas, vezes sem conta. Viro-as, examino-as ao pormenor. Não são minhas. Estão macilentas e têm dedos compridos e esguios com unhas a combinar. Veem-se todas as veias e estão manchadas, como se tivessem algum tipo de doença cutânea impossível de tratar. E parece que as vejo desfocadas, como se estivesse sob o efeito de drogas. Se calhar até estou, sem saber. Nunca sei. Agora já não. Já quis saber, é verdade, mas as pessoas mudam e, pelos vistos, eu não sou exceção.

Tento abstrair-me desta sensação de que não pertenço ao meu próprio corpo, por isso puxo o autoclismo, pego na mochila e no casaco e saio do cubículo para lavar as mãos. As mãos, outra vez. Tento lavá-las bem, para ver se muda alguma coisa, mas, ao secá-las, vejo que continuam na mesma. Não podem mesmo ser minhas! Tenho de deixar de pensar nisto.

Dou um encontrão a alguém que entra na casa de banho e faço-lhe má cara. Nem sequer olha para mim e eu sigo em frente. Já não quero saber. Viro a esquina a pensar se ainda vale a pena ir ao refeitório, ou se compro simplesmente uma sandes no bar. Não ando com muita fome e quero poupar. Quero sair daquela casa e o que ganho a trabalhar no El Corte Inglés não chega sequer para arrendar um apartamento decente na Amadora, quanto mais em Lisboa. Está tudo cada vez mais caro e eu estou cada vez mais no fundo da cadeia alimentar. Quase já me sinto a ser devorada. Quase.

A porra da sandes de atum é mesmo boa! E ainda consegui comprar uma Cola Zero para acompanhar. O preço do açúcar também é tramado e as minhas ancas e coxas agradecem. Não que a Coca-Cola faça lá muito bem no geral, mas pode ser que me limpe os intestinos (e a consciência também por arrastão). Dizem que é boa para limpar os canos e pode ser que assim me passe esta sensação de mal-estar constante. Olhar para aquelas mãos que pegam na minha sandes faz-me ficar enjoada e deito o resto no lixo. Não devia gastar assim o meu dinheiro, mas não consigo mesmo olhar mais para aquilo. Mete-me nojo que aquelas mãos lhe tenham tocado antes de ir para a minha boca.

Já não vou à última aula. Não estou com pachorra e preciso de arejar as ideias. «Tu, que já me saíste cá uma cabeça de vento!», imagino a mãe a dizer. Como dizia antigamente. Agora mal trocamos monossílabos. Provavelmente por minha culpa. Como sempre.

Vi o meu bafo fazer espirais de vapor no ar frio quando suspirei para a noite. Mas que horas seriam? Nem sabia onde estava. Parecia que andava sempre a perder bocados da realidade ultimamente. Perdia-me cada vez mais nas minhas fantasias e discussões mentais. Preferia imaginar a viver. Passava bem sem isso. Ainda ali estava de pé, mas tanto fazia estar assim ou estendida ao comprido no chão. Ia dar ao mesmo.

Ana Rita Sintra

(Os Invulgares)

2 Responses to "Estatelada, por Ana Rita Sintra"
  1. Manuel Sa diz:

    Coisas da vida. Bem conseguido. Gostei.

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