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O meu amigo Talé, grande construtor de sentimentos mas fraco na ortografia, pediu-me para corrigir uma carta de amor que ele pretendia enviar a uma rapariga chamada Biró, que o prendera no encanto dela. Como retribuição pelo favor prestado, pedi-lhe uma cópia da carta, que abaixo deixo transcrita. Eu, como sou fraco no sentimento… talvez se dê o caso de esta carta vir a ser-me necessária.

14-03-2018

Querida Biró

Eu não acredito… Um dia vou morrer, a minha vida é única e irredimível, não terei outra chance… e, mesmo assim, não tenho coragem para decidir a minha vida. Como pode isto ser? Porque não consigo eu afirmar as minhas convicções? Porque  não consigo alcançar os meus objetivos? Porque não consigo dizer sinceramente o que sinto? A estranhos? Nem isso! Não consigo dizê-lo àquela rapariga que eu amei quando ergui para ela os olhos, com quem convivo diariamente, e que constantemente ocupa o meu pensamento.

A voz da minha consciência tenta fazer-se ouvir, mas eu só consigo ouvir a tua voz. Que medo é este que me impede de humanizar os meus pensamentos? E eu vou morrer um dia. Sei antecipadamente que vou morrer, porque as pessoas à minha volta estão a morrer. As pessoas à minha volta estão a desaparecer. Gradualmente. Eu vou ficar só. E nem esta evidência consegue mostrar a verdade ao meu ser. Sabes o que significa a morte? Deixar de existir? Procurar em todos os sítios por ti e pensar que esse desencontro será perene? Procurar todos os dias por ti e tu estares sempre além de mim? Para além de tudo? A tua beleza transcende a insignificância do meu ser.

Os filósofos mataram Deus, por isso eu fiz da tua companhia o fim último da minha existência. Mas eu não consigo… Por causa do medo… O futuro… E não terei outra oportunidade. Se eu pudesse reconhecer os teus sinais… Se a imensidão da tua alma pudesse… Mas eu vou morrer… Um dia eu vou morrer… Não terei coragem… Vou deixar-te aconteceres-me. Vem até mim e diz-me. Compreende a minha voz. Compreende o meu apelo. Eu sei lidar com o bem e com o mal, só não sei lidar com a incerteza. Eu sei lidar com um sim e com um não, só não sei lidar com a indiferenciação. Vem até mim.

Luís Ramos

(Os Invulgares)

One Comment

    • Maria Furnas

    • há 2 anos

    Gostei! Embora não tenha a mesma opinião da morte. Que tudo acaba! Acho que é outra forma de viver e talvez nesta nova vida também seja possível amar.

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